“já era noite alta quando francisco pizarro decidiu executar atahualpa. depois de ser conduzido ao lugar da execução, atahualpa implorou pela sua vida. valverde, o padre que havia presidido o processo propôs que, se atahualpa se convertesse ao cristianismo, reduziria a sentença condenatória. atahualpa concordou em ser batizado e, em vez de ser queimado na fogueira, foi morto por estrangulamento no dia 29 de agosto de 1553.”
sexta-feira, 31 de agosto de 2007
o batismo
“já era noite alta quando francisco pizarro decidiu executar atahualpa. depois de ser conduzido ao lugar da execução, atahualpa implorou pela sua vida. valverde, o padre que havia presidido o processo propôs que, se atahualpa se convertesse ao cristianismo, reduziria a sentença condenatória. atahualpa concordou em ser batizado e, em vez de ser queimado na fogueira, foi morto por estrangulamento no dia 29 de agosto de 1553.”
judeus
marlene: mas também jesus vacilou. foi ingênuo. como todo filhinho de papai.
Marcadores: diálogos
longevidade
Marcadores: surtos
31 de agosto
Marcadores: diário de campo
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
noções de etiqueta
malcolm: olha, marlene, não é mais pra você deixar mensagens pra mim no orkut. suas mensagens são amaldiçoadas e você não tem noções de etiqueta.
mário quintana
alguém tem um cigarro ai?
os fóruns “já te queimaram com cigarro?”, “meu tio fuma muito”, “fumante devia comer a bituca!!!”, e similares, continuam lá. firmememente. não é o clube da luluzinha, mas parece.
felizmente, antes da expulsão, ainda deu tempo de eu receber e copiar o comentário de um desses fanáticos para preparar uma resposta. aqui está o comentário de marcelo (provavelmente o autor da denúncia que resultou na minha expulsão):
“Pois é, o próprio sujeito que defende o fumo reconhece que fumar é um vício idiota. E ainda esquece de mencionar que o fumante além de arruinar o próprio corpo, arruina também o dos outros com esse vício idiota. Então já está mais no que na hora de se acabar de uma vez por todas com esse vício nocivo, babaca e idiota. Fumantes, vão fumar na PQP e parem de encher o saco dos outros com essa porra.”
marcelo pqp faz alusões ao texto de millôr fernandes, citado na postagem já mencionada. li, copiei, escrevi a resposta no word, mandei pro fórum e quando cliquei no botão "enviar", percebi que alguma coisa tinha dado errado. voltei pra página principal da seita, e ai pude constatar o óbvio: eles não gostaram de mim. já tinha sido expulso de salas de aula, de bares, de apartamentos, mas de uma seita foi a primeira vez. confesso que estou até meio emocionado.
“caro, marcelo.
nós reconhecemos que o hábito de fumar é um vício idiota. não há dúvidas. mas o texto do millôr é tão dificil de entender assim? ninguém está defendendo o fumo, mas o fumante - e o direito, assegurado por lei, que ele tem de fumar. este país também é meu, e segundo as regras constitucionalmente estabelecidas, eu ainda tenho esse direito.
dou-lhes uma idéia: mudem as leis deste país, como fizeram os americanos na década de 30, em relação ao consumo de álcool. aquele bang-bang foi genial. ou façam como os brasileiros, que com o mesmo tipo de ato, fundaram a maior multinacional do mundo: o narcotráfico (pelo menos, neste ramo da economia, ninguém pode duvidar de nossa competência).
pra terminar, eu não fumo ao lado de não-fumantes; eu não ando com não-fumantes; eu não ando, sequer, com boas companhias. e só não vou fumar na pqp, porque tenho um blog pra fumar em paz. não vou, portanto, de acordo com as tuas próprias palavras, arruinar o seu corpo. se bem que isso seria uma brincadeira divertida.
saudações de um fumante ortodoxo.”
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
o problema
paixões
pra começo de conversa, eu não acredito em nada do que a psicologia me diz. me bastam as histororietas do meu psiquiatra. prefiro até as teses da sociobiologia. estas, ao menos, são divertidas.
II
os acréscimos - cor, volume, timbre - não estão na balança. senão, não seria uma paixão platônica.
III
eu não me considero "quase não-patológico", eu me considero "monarquicamente-patológico". então, talvez esteja fora do grupo a qual tu te referes.
IV
ao contrário dos "quase não-patológicos" e dos "patológicos", eu acredito que um relacionamento que durou mais de vinte minutos já deu certo. não entendo quando vocês ficam se perguntando umas as outras, depois de cinco anos de namoro ou casamento, porque o relacionamento "não deu certo".
V
a questão não é realidade ou fantasia, mas as incontroláveis pulsões da alma.
reacionários
não estou sendo irônico. juro. ele tem direito de acreditar no quiser, não? ele é uma cara legal pra estar contigo numa mesa de bar. não é um asno reacionário. é um gênio reacionário. eu adoraria ter gente como hitler e mussolini na minha mesa.
VII
o problema do freud é que ele ia passar a noite inteira indo e vindo do banheiro, e nas suas voltas, fungando, ia ficar calado aficionado pelo hitler. mas este, tenho certeza, nem ele conseguiria explicar.
o movimento das peças
outro dia, um dos meus alunos me perguntou por que o cavalo não andava em “C”. eu lhe respondi: "pelo mesmo motivo da torre não se mover em T".
a borboleta
a adriane galisteu sabe exatamente de quantos dólares de ambição a gente precisa pra construir um bom casamento. muito embora, ela prefira um defunto famoso do que um bom casamento - por amor a profissão. é uma mulher de sorte.
IX
não acho que só as mulheres participem desse jogo. mas eu estou fora. me deixaria mais animado ter participado do ataque às torres gêmeas. aliás, já me arrisquei bastante nessa vida. minha mãe que o diga. ela sabe, eu também tive sorte. não exatamente o mesmo tipo de sorte da borboleta galisteu. eu não vendo defuntos. eu os coleciono.
será que posso fumar no meu blog em paz?
igor luis manriques, fundador da seita orkutiana “vá fumar na pqp”, com mais 216 mil seguidores, me surge na tela do computador com o seguinte discurso:
o texto termina assim mesmo, e dá pra perceber que o rapaz escreve bem. mas como eu não gosto de chutar defunto, vou deixar que millôr fernandes gentilmente o faça por mim:
"enorme percentual de fumantes dispostos a continuar fumando, apesar de ameaças de câncer, enfizemas e outras quizílias. o fumo é realmente um vício idiota. mas os fumantes que persistem em fumar têm um vício ainda mais idiota - a liberdade. provando que nem só de pão, e de saúde, vive o ser humano. além do fumo ele aspira também gastar a vida como bem entende. arruinando determinadamente seu corpo - um ato de loucura - o fumante ultrapassa a pura e simples animalidade da sobreviência sem graça.”
campari
Marcadores: diário de campo
domingo, 26 de agosto de 2007
só uma ressalva
eu pensei que estava claro que eu estava me referindo a década de 40 do século XX e não a dos séculos XV e XVI. no mais, concordo plenamente - e não disse o contrário - que as justificativas para o extermínio de índios e judeus são muito diferentes. não preciso ver filme de ninguém pra entender que seres humanos são facilmente impressionáveis - e que os espanhóis só não filmaram aquela carnificina toda no peru porque francisco pizarro tinha esquecido sua câmera digital em madrid.
conchas
um pouco mais tarde, lucy in the sky with diamonds me disse:
“mas eu também dava as minhas viajadas quando criança. acho que foi de tanto ouvir conchas que eu pensei em ser astronauta. mas quando me disseram que tinha que saber matemática eu desisti. também quis ser empregada doméstica. eu via a empregada lá de casa cortando a carne e achava aquilo tão macio e tão legal que disse pra mamãe que quando eu crescesse queria ser empregada doméstica. nem preciso dizer que a dona lourdes não gostou nada nada dessa história. aí ela me falou nesse negócio de estudar, de fazer pós e mestrado e que a vida é dura e que sem estudo não se é ninguém nessa vida. cai na dela direitinho!”
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
a experiência
Marcadores: diário de campo
sil^^encio
carmem: Ei ceis dois voc^^es acham que o sil^^encio é a resposta que devemos dar aos loucos? é sério! please! Beijos!
lygia maria: ela tá perguntando pra mim tb? é isso? olha, se for... eu acho que o silêncio é a resposta que se deve dar aos burros. com os loucos é bom trocar umas idéias.
malcolm: faço minhas as palavras da lygia. mais alguma pergunta?
carmem:
malcolm: nenhuma pergunta? então, eu tenho uma: "voc^^es" e "sil^^encio" são formas de neo-miguchês?
carmem:
lygia maria: e agora?! burro ou louco?
carmem:
terça-feira, 21 de agosto de 2007
eu era bonito
pra não ficar nenhum mal entendido aqui, vou tentar ser o mais didático possível. queridas crianças, leitoras de blogs: lavem suas mãos antes de comer, respeitem os mais velhos, não falem com estranhos, não tomem refrigerantes, ajudem pobres velhinhas e cegos a atravessarem ruas, não discutam com seus pais, respeitem seus professores, não brinquem com fogo, façam regularmente seus deveres-de-casa, e, principalmente, não roubem taxistas. sobre consumo de drogas eu podia dar uma porção de conselhos, mas deixarei que a ex-mulher do mick jagger fale alguma coisa a respeito: “eu não falo sobre drogas com meus filhos, eu só peço a eles que olhem o keith richards.”
Marcadores: crônicas
domingo, 19 de agosto de 2007
mãe natureza
gorilas de orelha amarela
biologia
eu desprezo completamente a biologia na questão do amor. em relação a minha gastrite ela tem razão.
scrap à marlene dietrich
s/d
moradores problemáticos
um pouco mais de l. m. bergman:
I
II
III
como forma de minimizar o incômodo, vou sugerir que coloquem a gente nos três últimos andares do prédio. ou então que eles mudem todo mundo logo pro salão de festas.
tratados
O BURCACO DA FECHADURA
“eu no meu quarto. eram duas horas da manhã e eu não conseguia dormir por causa dos carapanãs. eu estava irritado porque eu havia detetizado o quarto um dia antes e eles continuavam ali. então comecei a pensar como seria bom se os carapanãs fossem inteligentes. porque se fossem inteligentes pensariam: “ontem ele dedetizou o quarto e pode detetizar hoje de novo. vamos fugir!”. mas depois pensei que assim estariam sendo burros, porque se fossem espertos de verdade pensariam: “ele de detetizou o quarto e pode querer detetizar hoje de novo, mas caso ele se levante pegar o DDT no armário, nós fugimos!”. mas depois pensei que na verdade estariam sendo burros porque com o quarto fechado não teriam como fugir. mas depois pensei que estariam sendo inteligentes já que saberiam que poderiam fugir pelo buraco da fechadura.”
SE EU SOUBESSE QUE
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
plantadores de tomate
provérbio espanhol
eu também acho o veríssimo genial. algumas pessoas da chamada alta literatura acreditam que ele produz uma literatura menor, justamente porque elas usam a arte não tanto pelo exercício de fruição a que ela de fato se destina, mas pelo prazer de usá-la como um instrumento sádico de delimitação de fronteiras culturais. é preciso deixar claro pra todos que eles nasceram em paris e não em teresina. ou, indo direto ao assunto, como é algo que se tornou popular, não pode ser bom.
pierre bourdieu, num texto que se não estou enganado chama-se “o processo de autonomização da obra de arte”, explica isso de uma forma bastante clara. quando a burguesia assumiu o controle das forças produtivas no século XIX, precisava de um conjunto de artefatos que a diferenciasse das classes populares - de onde, inclusive, ela se originou. os burgueses não eram aristocratas, mas gente do povo, pequenos comerciantes que com o tempo se tornaram bem sucedidos economicamente. sob essas circunstâncias criou-se o ambiente adequado para constituição do processo de profissionalização e independência dos artistas, pois estes, tendo que atender a uma demanda absurda de pinturas, esculturas e desenhos, pelos burgueses, passaram a viver exclusivamente da arte que produziam – e não de um emprego no funcionalismo público, por exemplo. aqui se consolida finalmente as condições ideais para a autonomia da arte - e, por extensão, a criação das muralhas culturais que separariam o povo do próprio povo.
se pensarmos bem, até hoje é assim, e, por exemplo, se um arquiteto ou um artista plástico quer ser bem sucedido, ele tem que participar do circuito da “high society” com suas máscaras de sorrisos, exatamente como as balaclavas protegiam os soldados ingleses do frio na guerra da criméia. mas mesmo algumas pessoas da chamada “contracultura” ou da “roda intelectual-artístico-boêmia” (pra usar um palavrão do gilberto velho), fazem a mesma coisa. é incrível como eles têm horror a consumir o mesmo tipo de bem que uma pessoa mais simples (apenas no sentido burguês da palavra) consome. quer dizer, passam o tempo inteiro falando aquela besteirada sobre a burguesia, e no final das contas, fazem a mesma coisa que os burgueses. eles têm horror não a obra em si, mas ao fato dela está sendo consumida pelo povão. com machado de assis: "a onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal".
o contraponto desse estado de coisas é que em nome da virtude e dos bons costumes a gente tem que passar o dia inteiro ouvindo todo tipo de lixo musical, enquanto estamos ocupados na cozinha de um restaurante fino lavando as louças, os talheres e as panelas da democracia. enquanto isso, o preço da cesta básica não para de aumentar porque os plantadores de tomate continuam fugindo pra são paulo com um violão em baixo do braço.
adaptação de e-mail resposta à marlene dietrich.
s/d
Marcadores: panfletos
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
segunda-feira
eu tentei explicar pro pessoal da chevrolet coporation como eles podiam ganhar dinheiro com o meu blog, mas eles me mandaram voltar na próxima segunda-feira.
os pulsos já estão cortados
eu tenho a página que me indicaste entre os favoritos. aliás, outro dia um amigo meu veio aqui, e me mostrou um site. mas achei muito leve. depois da foto daquela passageira sem cabeça (e elegantemente sentada como se nada tivesse acontecido), nada me deixa tão impressionado.
(...)
é que aquela foto tá bonita. só faltou um cigarro acesso no meio do pescoço (ele não tinha mais boca, né? quer dizer, tinha, mas a cabeça estava em outro lugar).
(...)
boa pergunta. em primeiro lugar, eu não queria morrer ainda. de forma nenhuma. agora se tivesse que escolher, escolheria uma morte rápida e sem dor. como qualquer homem. só isso. vocês mulheres são mais vaidosas, talvez não iam querer estar expostas por ai com o corpo pro lado e a cabeça pro outro. talvez preferissem uma morte lenta e dolorosa a perder a pose. depois de morto, façam o quiserem comigo.
(...)
é ... acho uma boa idéia. pelo menos, pulsos cortados e veias expostas não borram a maquiagem de ninguém.
scraps à björk guðmundsdóttir.
s/d
Marcadores: surtos
crianças remelentas
Marcadores: microcrônicas
fernando pessoa
eu tenho um amigo que diz que a antropologia, e tudo que vem do centro de filosofia e humanas da ufsc, não serve pra nada. relendo um fragmento de meu diário de campo, confesso que fiquei inclinado a acreditar nisso. segue o texto:
remistas
"estava eu de ressaca, passando mal, jogada no sofá vendo tv, quando é exibida a entrega da medalha de ouro para a equipe de ginástica rítmica no pan. e o que aparece atrás das meninas, enorme, gigante, pra todo mundo ver? uma puta bandeira com o escudo do remo! caráleo! vcs são muito presepeiros, mesmo, né?!
tive que tomar outro engov pra me recompor!"
comunidade científica
monges
Marcadores: surtos
terceira consciência
expansão da consciência, unificação dos pensamentos e viagens mentais, misturados a ácido, cogumelos e maconha, nos aproximaria de jesus, buda e mao-tsé-tung. e também poderia nos fazer voar como um abutre pelos desertos mexicanos, como carlos castaneda nos alega ter feito. de acordo com o índio don juan, o chefe de castaneda, “homens de conhecimento” não escrevem teses, mas saem por ai voando, encontrando-se com cachorros transparentes e luminescente ou dialogando com mosquitos de cem patas. para esses feiticeiros, “a razão é uma invenção do complexo militar industrial”.
Marcadores: crônicas
greta garbo
greta: estranho ter que recorrer a um antropólogo para constatar que a geração de seres humanos (in utero) é diferente da geração de fezes (pelo estômago).
malcolm: quando estou confuso sempre recorro a alguém da antropologia pra me divertir um pouco. é pra eles que eu faço as minhas orações diárias. em relação às fezes e aos seres humanos, eu admiti, desde o início, que se tratava de uma pequena confusão minha. eu sempre pensei que se tratavam de seres da mesma espécie. e até que eles não têm um futuro muito diferente.
greta: mas o que causa mais questionamentos, é qual seria o equívoco do tal mischa titiev, dado a sua descrição tão seca e óbvia.
malcolm: a descrição de mischa titiev não é nem tão seca, e nem tão óbvia. ele diz, por exemplo, que em relação a vida dos primeiros hominídeos que “pode-se supor que as suas vidas estavam ajustadas para fazer face, em exclusivo, às necessidades do mundo biológico”. aproveitando-me de uma curiosa expressão cunhada pelo próprio titiev, ninguém que esteja vivo pode afirmar que os primeiros homínideos eram seres desprovidos de cultura. como logo veremos, a cultura é anterior ao homem. pergunte isso a um morto.
greta: pelo visto, atrizes de cinema da década de 30 têm algo a mais a dizer sobre a espécie humana, ou vai ver que nossa existência é, por natureza, escatológia.
malcolm: atrizes de cinema da década 30 são ansiosas demais pra isso. por essa razão, morriam de overdose vinte anos depois, tristes e solitárias dentro da suíte suja de algum hotel barato. agora, concordo com você, nossa existência é, por natureza, escatológica. quase desisti da postagem e da própria antropologia, depois desse comentário. não foi fácil pra mim, um neófito da empresa, ver o 150 anos de estudos antropológicos resumidos numa única frase. vocês, divas do cinema, são mais junkies do que beatniks, hippies, punks e donas-de-casa de classe média, mas sempre nos tem algo a dizer.
sexta-feira, 27 de julho de 2007
tomando o chá de geertz ou como george bush perdeu seu emprego no afeganistão
até terça-feira passada, eu acreditava que os bebês eram seres gerados no estômago de suas mães. coisa simples. felizmente marlene dietrich, numa madrugada fria, alertou-me sobre existência de um estranho orgão chamado útero. fiquei muito impressionado com isso. no outro dia, busquei informações com o antropólogo russo mischa titiev e ele me disse o seguinte:
“Há muito pouco, no domínio do puro comportamento biológico, que possa diferenciar um membro da espécie Homo Sapiens de um indivíduo pertencente a muitas outras espécies de mamíferos, principalmente em relação aos grandes Primatas tais como os orangotangos, chimpanzés e gorilas. Uma vez que lhes seja proporcionado um ambiente favorável, os seres humanos podem desenvolver larga série de atividades, apenas com o seu equipamento biológico, geneticamente determinado e hereditário, por muito inadequado que este possa ser em certos aspectos. A título de exemplo bastará considerar os hábitos de vida dos primeiros hominídeos. Ninguém que esteja vivo sabe como é que as primeiras criaturas semelhantes ao homem realmente viviam, mas, partindo do princípio que seus corpos eram constituídos de forma muito semelhante à do nosso, pode ser instrutivo tentar imaginar o que eles faziam.
Como conjetura, pode-se supor que as suas vidas estavam ajustadas para fazer face, em exclusivo, às necessidades do mundo biológico. Involuntariamente os seus pulmões inspiravam oxigênio, os seus corações bombeavam sangue e as temperaturas dos seus corpos normalmente permaneciam num nível constantemente elevado. Sempre que se esforçavam, eles respiravam mais fundo do que habitual e sentiam-se cansados; quando tinham frios, os seus dentes rangiam e os seus corpos tremiam; quando tinham calor suavam; e sempre que se sentiam suficientemente cansados descansavam ou dormiam. Se os seus estômagos se contraíam eles sentiam as dores da fome e pensavam em levar comida às suas bocas, onde era umedecida, mastigada e enviada para o tubo digestivo. Quando havia pressão na bexiga eles urinavam e quando seus intestinos estavam cheios defecavam.
Os corpos masculinos estavam organizados de maneira a formar células espermáticas nos testículos e os corpos femininos a produzir células ovulares nos ovários. De tempos a tempos os seus orgãos genitais eram estimulados e eles copulavam. Se a fertilização se seguia a este ato, os períodos menstruais da fêmea eram suspensos e formava-se um embrião dentro do seu corpo, onde era alimentado, ao longo de uma gestação de cerca de nove meses, por intermédio de um dispositivo placentário. Depois de dar à luz ao seu filho, a fêmea separava aquele dispositivo do seu corpo logo a seguir ao parto, amamentava a criança e ajudava-a muitas vezes até que ela atingia uma fase em que já podia mover-se por si própria. À medida em que os anos iam passando, os corpos dos machos e das fêmeas sujeitavam-se a algum acidente, ou doença fatal, ou iam envelhecendo e deteriorando-se. Então, a morte vinha terminar os aspectos biológicos do seu comportamento e os cadáveres decompunham-se de acordo com as leis imutáveis da física e da química.”
II
titiev me impressiona não apenas por suas idéias, mas também pelo fato de falar português tão bem, mesmo tendo nascido em um lugar como kremenchug. e ele, não satisfeito com todo esse discurso, segue mais adiante nos classificando como seres vivos do reino animal, subreino dos metazoários, filo dos cordados, subfilo dos vertebrados, classe dos mamíferos, subclasse dos uterinos, ordem dos primatas, subordem dos antropoídeos, gênero homo, e, enfim - isso tinha que terminar em algum desastre – como pertencentes da espécie conhecida como "sapiens". pra quem não sabia nada sobre o útero digamos que a conversa me foi bem proveitosa.
agora, passando do útero ao problema do suicídio, o que isso nos tem a dizer sobre o tabu indiano contra o abate de vacas? e sobre o tabu judaico contra a carne de porco? e o que dizer sobre o tabu dos tapirés contra a carne de veado? e os balinenes, que para entrar entrar em determinados estados de transe cortam com uma mordida a cabeça de galinhas, balbuciam palavras de forma confusa, giram enlouquecidamente e até comem fezes? será a cultura apenas um disfarce, uma indumentária, um aparato artificial colocado acidentalmente sobre essa espécie de macaco esperto, apenas para confundir aqueles que buscam uma explicação coerente pra esse estado de coisas?
e as valorações estéticas, o sentido do belo, as noções de certo e errado? o que dizer sobre os impulsos sexuais e, como consequência, sobre as escolhas que machos e fêmeas fazem com objetivo de trazer ao mundo novos herdeiros aos filhos de adão? o que os nossos genes têm a dizer sobre a vida cotidiana? que por trás de toda forma de expressão cultural existe uma instituição universal chamada natureza humana? e que esta, por sua vez, é regida por leis imutáveis, como as leis da química e da física? será que devemos descartar as alegorias carnavalescas da cultura e substituí-las milagrosamente por alegorias menos extravagantes? será que, no fundo, no fundo, george, franscisco, adolfo, eu e você, somos a mesma pessoa?
celeuma II: porque os americanos são uma espécie em extinção ou o fantástico equívoco de mischa titiev
segunda-feira, 9 de julho de 2007
o pará para os paraenses: nota sobre a máfia do tacacá
paulo francis
recentemente fui acusado por dois paraenses xiitas de ter sido negligente com o que eles alegam ser a cultura paraense. cada um a seu modo. cada um com seus tiques. cada um com o seu arsenal de asneiras. o fato é que preferir peter murphy a nilson chaves, ou lou reed a chimbinha, não é exatamente o projeto mais ambicioso de um paraense não-praticante, mas uma dissertação sobre as qualidades terapêuticas do tacacá. não entendo como coisas desse tipo possam ser tão difíceis de entender. e lhes pergunto: fora a institucionalização do gosto, foras amarras do regionalismo, fora os heróicos brados retumbantes, de quantas novas prisões necessito pra me sentir civilizado? fico aguardando o menu completo, ávido para participar da brincadeira. e, se isso lhes serve de consolo, deixo aqui registrado que acredito no pará. de coração. acredito no pará, como acredito no brasil. aliás, como todo bom patriota, estou até acompanhando a copa américa. devo admitir, é verdade, que quando robinho fez o terceiro gol contra o chile desliguei a tv desesperançoso. na próxima quarta-feira, espero que o uruguai possa trazer meu bom humor de volta.
Marcadores: microcrônicas
segunda-feira, 2 de julho de 2007
sou eu que não presto
esse era um texto de uma canção de humberto effe. agora é um texto de minha autoria. e o dedico a marlene dietrich.
você é minha cadeia
enjaulado
fico preso no seu corpo
você me caça em suas teias como seu escravo
selvagem não me canso
pra que fugir me entregar é a única saída
como seu escravo me perdi na sua selva
meu coração
preso nessa cela
abre as pernas da sua paixão
o mundo anda mal mas sou eu que não presto
sou resto de uma idéia de uma nova rebeldia
o povo dessa selva se balança de alegria
vejo a tristeza se encharcar de euforia
enquanto feras estão soltas você me tortura a cada carência
e a cada violento arranhão
se pensa que isso é paixão esqueça
certas coisas não se sentem só no coração
será que alguém entende o meu amor?
você deve compreender o meu estranho jeito
de ser demente escravo do seu corpo
ou também acha esse o meu maior defeito?
pandora
Ontem ocorreu-me algo no msn:
Pan diz:
vc já imaginou robin se te cobram a porta da liga aberta?
Malcolm diz:
quem é vc?
Malcolm diz:
eu tô de saida!
Malcolm diz:
me cobram a porta da liga aberta?
Pan diz:
uma curiosa...que viu seu msn jogado por ai...dai sempre e sempre pensando nas possibilidades achei que poderia fazer um amigo super herói parodiando seu mail claro
Malcolm diz:
robin é de robinson
Pan diz:
tudo bem eu estava brincando...nada mais...
Malcolm diz:
entendi
Malcolm diz:
quem é vc? a bat girl?
Pan diz:
a gente se deleta se o ponto foi uma invasão que tu não querias...mas ai eu penso pq me aceitou...então agora eu fico...até vc apertar o delete
Pan diz:
eu sou a pan...ih pior
Pan diz:
eu sou a Pandora...minha caixa de absurdos sonhos
Malcolm diz:
caixa de absurdos de sonhos ...
Malcolm diz:
comecei a gostar ...
Pan diz:
e nao é assim quando esbarramos em alguém que nos chama a atençao....ah vc me chamou...deixando teu msn na rua
Malcolm diz:
deixei propositalmente
Pan diz:
foi mesmo? humm vc estava esperando a garota mágica passar....eu sabia ....
Malcolm diz:
eu sempre estou esperando a garota mágica passar
Pan diz:
então vc gosta de magia
Malcolm diz:
não. gosto de caixas de absurdos sonhos
Pan diz:
vão ter muitas aqui então
Malcolm diz:
mostre-as
Pan diz:
então eu fiz bem no fim de tudo te trazendo pra esta minha caixa de desejos
Pan diz:
vou mostrar ...
Malcolm diz:
mostra
Pan diz:
me diz que vc tem pra me chamar assim pra si?
Malcolm diz:
eu tenho apenas uma escultura enfumaçada no centro da sala com pessoas girando em torno dela
Pan diz:
já me basta
Pan diz:
quero girar junto
Malcolm diz:
então venha. estás convidada.
e ela se foi.
01.VII.07
sábado, 30 de junho de 2007
vou tirar você do meu sapato
vou tirar você do meu sapato
vou tirar você do meu sapato o tempo segue a sua velocidade e o amor não cabe num comportamento que aflição ninguém sabe nada sobre o amor desta palavra esquisita que serve para definir uma função fisiológica que as pessoas revestem de um sentimento puramente decorativo e penduram na parede do lugar comum ao lado do vaso com as rosas artificiais dessa enrascada que me botaram sem pedir licença tudo bem ninguém sabe nada sobre o amor e até que posso tentar entender o teu químico amor e porque continuas tentando maquiar o tédio apontando o culpado da monotonia dessa terça-feira mas não comprei o último lançamento da música sertaneja o inferno é o caminho do céu então me certifico olhando para o relógio para saber em que terras do tempo meu corpo emerge da areia ao sol refletindo idéias
dentro do meu corpo percebo-me sentado pensado no corpo pesado dentro do sono lesado tentando dizer pra você que mesmo pensando sentado ao teu lado eu continuo errado ontem fez um dia lindo com sol e céu vermelho e eu já cansei de tentar mudar não acredito mais em coisa alguma e ainda assim você continua insistindo em me dizer que ando distraído talvez chico buarque com aquela velha história que a tal menina não tinha nada com a sua vida pudesse me dizer alguma coisa a respeito diz que deu diz que dá diz deus dará oh nega eu já estou de saco cheio e aproveitando a oportunidade vou andando pelo muro quando de repente encontro alguém que reclama do meu cigarro assustado cansando e com fome desço do muro com medo que essas normas jurídicas possíveis e imprevisíveis possam me enquadrar pulo fora pela esquerda e quando levanto a cabeça meu pensamento que cambaleia pelo asfalto do esclarecimento me fez lembrar que não tenho nem uma moeda no bolso e nenhum lugar me espera mas é daí é preciso compreender a importância do diabo para consagração definitiva de deus e se eu quiser também lhe dizer adeus ou tentar lhe convencer que deus e o diabo são a mesma pessoa por amor não tente me entender
quarta-feira, 27 de junho de 2007
notícias sobre a minha morte
“A queda é uma questão filosófica visceral: conhecer um homem em seu apogeu e admirá-lo é tarefa fácil. Conhecer um homem em sua queda, ver suas reações, sentir a força marmórea de sua dignidade insuspeita, isto sim é conhecer alguém em sua profundidade.
O Paysandú caiu. Viva o Paysandú!”
A.N.
segue a minha resposta:
“se o seu texto é uma espécie de resposta a crônica de minha autoria, tomo de assalto groucho marx para esclarecer que só a escrevi porque recentemente cheguei a conclusão de que as notícias sobre a minha morte soavam um tanto exageradas. coisas de um velho junkie decadente. após ler o seu texto, vi-me subitamente sob nova onda de estímulos. mas farei de conta que não é a vaidade que norteia nossa indisfarçável ciranda de devaneios. e que minha crônica falava de futebol.
munidos desse requintado alfabeto de predicados e prerrogativas lapidaremos cada palavra desse debate com o desvelo do artesão que lapida a própria tumba. mais adiante, tomaremos nossas vísceras como testemunha, e, orgulhosos de nosso fervor religioso, cantaremos aos nossos totens preferidos uma febril canção de louvor. nada mais civilizado.
se não o for, pouco importa. poupar-me-ei do esforço de ter que digerí-lo. mas ligarei imediatamente a televisão para esperar ansiosamente os gols do fantástico. nunca se sabe. bernard shaw já nos chamou a atenção do grave inconveniente de não termos olhos na parte de trás da cabeça.”
Marcadores: surtos
segunda-feira, 25 de junho de 2007
futebol, nazismo e identidade cultural
numa partida de futebol, isso tudo fica bem claro. de um lado, “os eleitos”, a quem seu deus lhes disse, “faça justiça!”; do outro, a própria “corporificação do mal”. nós estávamos, é claro, separados da “corporificação do mal” pelo alambrado - o que não impedia a mútua provocação entre os torcedores. em alguns momentos, a guerra entre as torcidas ficava mais interessante do que a própria partida. o ponto culminante disso tudo aconteceu quando a torcida do paysandu, depois de quase esgotar seu repertório de insultos e agressões verbais, passou a chamar em coro os torcedores avainos de gaúchos. “gaúcho! gaúcho! gaúcho!”. um dos torcedores do avaí, dos mais exaltados, se aproximou do alambrado e, com o dedo em riste, disse aos berros: “gaúcho, não! gaúcho não!”. entendi. comentários sobre os hábitos – digamos, irreverentes – de sua própria mãe, pode. gaúcho, não.
o paysandu perdeu o jogo. uma pena. duplamente. por que, em primeiro lugar, ganhar o jogo ali no centro do caldeirão avaiano seria um presente dos deuses. e depois, embora o avaí seja bicolor, como o paysandu, ele também é chamado por seus torcedores de leão. como aquele timinho paraense, que não lembro mais o nome.
Marcadores: crônicas
domingo, 24 de junho de 2007
a convocação
"no futuro, todo mundo vai ser famoso por quinze minutos."
andy warhol
I
no outro dia, de manhã cedo uma comitiva da CBF, após afastar a excitada multidão, bateu na sua porta. sem nada perguntar arrancaram-lhe pelos braços caso a fora, sob os protestos do atônito homem que tentava lhes convencer que aquilo se tratava de um engano. com o pensamento ainda embotado pela garrafa de velho barreiro que havia tomado para tentar dormir, foi jogado num microônibus em que se via as inscrições "BRASIL RUMO AO PENTA", em letras garrafais!
III
pantoja, acuado, parecia ser o único inconformado entre os convocados. encontrou os jogadores que só conhecia pelo "globo esporte". leonardo lhe deu uns tapinhas nas costas, "força, irmão!". zagallo, por sua vez, gesticulando nervosamente, já lhe apresentava o desenho tático do ataque brasileiro, ressaltando a importância de sua flutuação pelas alas para tentar romper o forte bloqueio defensivo escocês. denilson e rivaldo o tratavam como velhos amigos. romário nem o olhava.
IV
chegado o dia da estréia, a caminho do "parc de princes", pantoja conflitava silenciosamente: "por que logo comigo?". de qualquer maneira, agora era tarde demais já que a fanática multidão lotava o estádio e ele estava no globo central do gramado esperando o momento do juíz apitar para dar início a partida. e foi dado o início! pantoja toca a bola para ronaldinho, que toca a bola para rivaldo que passa a esquerda e chega a roberto carlos que dribla um, dribla dois, devolve para rivaldo, que obedecendo um berro do capitão dunga lança em profundidade para cafu, que velozmente dá um chagão no imenso zagueiro escocês e cruza para grande área. o goleiro voa, mas deixa escapar a bola na frente de pantoja, que sozinho na frente da trave faz o gol! gol do brasil! desses que até o fernando vanucci faria. 1 x 0.
dado o reinício da partida, o meio campista da escócia malcolm robinson, já percebendo quem era pantoja acerta-lhe um violento pontapé, que deixa nosso craque no chão, silenciando o estádio. o meio campista escocês é expulso sob as vaias da torcida e pantoja sai de maca do campo, do qual não retorna mais. o brasil vence o jogo com esse gol, pantoja sai carregado pelos companheiros como herói da partida e no dia seguinte a manchete do jornal "l'equipe" noticía o surgimento de um novo fenômeno no futebol. a foto colorida de pantoja sendo carregado pelo escrete brasileiro enaltecia em brilho a festa nacional. a imprensa francesa o chamava de "le formidable", enquanto deus e o diabo testemunhavam o orgulho eminente que o olhar de pantoja expunha ao ouvir a sonoridade do seu nome pela voz dos comentaristas franceses: "luí pantojá".
V
deu entrevista coletiva com tradutores para dezenas de idiomas. pantoja aos poucos ia se adaptando a situação. riu timidamente quando um jornalista belga, que trabalha para uma revista de variedades em nova york, o indagou sobre o comentário oportunista que sharon stone fez sobre sua maneira algo "sexual" de fazer gol. ele não entendeu a piada, mas suas frases significavam furos de reportagem e rapidamente chegavam as páginas de jornais de todas as partes do mundo. em meio a um animado grupo de jornalistas, respondeu a um renomado crítico futebolístico do cazaquistão sobre os erros táticos de zagallo: "a gente tem que dar crédito ao professor. ora, com exceção da ana paula arósio, ninguém é perfeito", e os jornalistas caíam as gargalhadas.
VI
juntamente com o resto da seleção luis pantoja voltou para o brasil. fernando henrique cardoso e dois ou três ministros os esperavam no hall do aeroporto do galeão. nosso convocado, que se sempre se achara feio sob qualquer ponto de vista, agora era saudado por bronzeadas cariocas aos berros: "lindo, lindo, lindo!". exageravam, obviamente, mas sob o carro dos bombeiros o paraense desfilou pelas ruas do rio de janeiro ofuscando o brilho dos outros jogadores, que, no fundo no fundo, sentiam uma leve inveja de tão ascendente personalidade.
VII
pantoja nunca mais jogou futebol. os anos se passaram, e cada vez mais acreditava que tinha pendurado as chuteiras no momento ideal. já era rico, famoso, tinha todas as mulheres que desejasse e não havia porque sacrificar-se em novos esforços. mas pelo menos a velhice, passada confortavelmente em uma de suas muitas fazendas, o trouxe uma certeza: tem coisas na vida que não precisam ser explicadas.
junho de 1998.
sábado, 23 de junho de 2007
a caça
faço questão de estar errado
não pertenço a tua língua a tua raça não sou tua caça
não pertenço a nada
eletrodomésticos
adaptção de scrap-celeuma à vladimir i. ulianov lennin.
16.VI.07
Marcadores: surtos
sexta-feira, 22 de junho de 2007
o diabo
scrap-celeuma à brigitte bardot.
s/d
homem coloca a filha no microondas e a mulher culpa o diabo por isso
observe a chamada da folha de são paulo: "homem coloca a filha no microondas e a mulher culpa o diabo por isso". nota que as maneiras de contar o fato são na verdade recriações, uma abstração sobre o que de fato ocorreu, e que só pode ter tido vida no momento de sua ocorrência. embora o jornalista queira trazer as informações de uma maneira imparcial, ele está criando na verdade ao espectador a ilusão que ele está vivenciando a realidade. mas não está.
percebemos logo de cara que o jornalista, e o leitor-modelo desse veículo de comunicação, não acreditaria que o diabo (que deve estar agora inocentemente sentando em uma confortável poltrona vermelha no inferno se lamentando “o que que eu fiz dessa vez?!”) foi o verdadeiro culpado pelo crime - senão, a manchete não teria tal acusação. por outro lado, uma sociedade com crenças acentuadas em “forças do mal” estaria convencida de que um homem não seria capaz algo do tipo, de forma que se tratava realmente de uma ação de lúcifer - ou seja lá como eles chamam o cara-, e a chamada nos revelaria outro "fato".
nesse sentido, se está criando, tecendo, construindo algo. quando tu perguntas pra uma pessoa como foi a noite, ela pode te dizer que foi legal, que fulano e beltrano estavam lá, e que ela passou três horas e meia tentando sair do banheiro, mas que não encontrou a porta de saida porque estava absolutamente bêbada. e tu podes até dizer que entendeu. mas o que foi vivido, como nos mostra clarice lispesctor, não é relatável, não é vivível. agora acredito, e acho que esse é o ponto chave da questão toda, é que alguns dos elementos do "evento" podem ser transmitidos ao espectador de maneira bastante precisa (bin laden derubou dois prédios, e não três casas). talvez por isso tu tenhas discordado da afirmação de que todo escrito é uma forma de ficção - e eu concordo contigo apenas nesse sentido.
no sentido jornalístico dizer que tudo é ficção é simplesmente sepultar toda credibilidade da imprensa. imagina um jornalista dizendo ao editor-chefe que não foi fazer a matéria porque "criou o que aconteceu". se ele não for sobrinho do dono da empresa, vai encontrar alguns problemas depois pra pagar suas contas. agora na antropologia a coisa toda segue uma outra orientação. eles também tabalham com "fatos" no sentido jornalístico, mas se o projeto fica nisso, ele torna-se um trabalho jornalístico - então pra que precisaríamos de antropólogos? a diferença é que o objetivo não é descrever o fato, mas compreender porque os caras estão agindo dessa ou daquela maneira. e aqui, a antropologia é uma ficção. alguém vai lá, observa, participa, e volta com um conjunto de textos de baixo do braço. ficções.
s/d
natal
scrap-resposta à clarice lispector.
s/d
em busca do cálice sagrado
scrap à timothy leary.
s/d
resposta do colonizado
scrap-resposta à maria bethânia.
s/d
Marcadores: panfletos
o concurso
scrap à flávia wintenberg.
s/d
ócio
se domenico de masi é um pouco mais careta, o mesmo não pode ser dito sobre as suas idéias. tenho um artigo em que ele, fazendo uma metáfora sobre a sociedade ocidental, nos conta a história do de um herói grego que foi punido pelo excesso de engenhosidade. sua pena era transportar uma rocha até o topo de uma montanha. chegando lá, a rocha se precipitava até a base. e ele tinha que fazer de novo, e de novo, a tarefa por toda eternidade. um trabalho inútil. a diferença é que hoje, a sociedade industrial poderia construir um mecanismo eletrônico que fizesse a tarefa por ela. assim, poderia aproveitar todo o tempo livre.
e no final das contas, o que é a “velhice” ou “aposentadoria”, senão uma espécie de sepultura, e, por essa razão, o maior indício que a lógica toda do sistema tá errada? o grande problema é que além de não sabermos o que fazer com o tempo livre, nos sentimos orgulhosos quando dizemos que trabalhamos vinte horas por dia. é como se isso nos absolvesse de toda a responsabilidade pelo fato de uma horda de “vagabundos” estarem “compondo”, “pintando” ou “escrevendo”. e ao mesmo tempo, é como se tais atividades não podessem ser chamadas de trabalho. nós estamos tão impregnados deste tipo de orientação que outro dia o frejat estava contando que seu filho lhe perguntou se ele não trabalhava. esse tipo de coisa não surge por falta de maturidade de uma criança, mas por falta de maturidade do “pensamento do homem contemporâneo” - um estado de sociopatia agudo.
Marcadores: panfletos
cave de mourville
fragmento de scrap-resposta à claude lévi-strauss.
28.XI.06
fumaça de fios queimados
falando em energia elétrica ... minha ducha pegou fogo! um espetáculo! terminei o banho congelado! e agora eu tô fumando as 5 mil substâncias tóxicas atribuidas ao meu cigarro, misturada com essa fumaça de fios queimados. tô eperando pra ver o que acontece.
scrap à anna robinson.
14.VI.07
II
não. eu fiquei lá dentro mesmo. desliguei a a ducha. depois continuei tomando banho normalmente. só sai quando não conseguia mais respirar.
scrap-resposta a juliette lewis.
Marcadores: diário de campo
rock'roll
Marcadores: panfletos
o canibal
"com o apoio dos soldados e engrossando as fileiras pelo caminho, napoleão avança rapidamente em direção a paris. as manchetes dos jornais parisienses da época informavam: ‘o monstro corso desembarcou na baía de são joão’. ‘o canibal marcha sobre grasse’. mas, a medida que o avanço de napoleão obtinha êxito, os jornais mudavam de tom. ‘bonaparte ocupou lyon’, ‘napoleão aproxima-se de foitenaibleu’. finalmente, um dia antes do irreversível avanço sobre paris, as manchetes anunciavam: ‘sua alteza imperial é esperada amanhã em sua fiel paris".
Marcadores: panfletos
comunistas
Marcadores: panfletos
use vírgulas para separar os interesses
televisão
o que mais admiro na tv é sua capacidade de amplificar nossa mediocridade. a tv não cria nada de novo. é sintoma. febre. náusea. ao contrário do que as pessoas imaginam, foi o povo quem inventou o silvio santos. foi o povo quem inventou o tarcísio meira. foi o povo também quem planejou, desenhou e executou o projac. foi o povo quem inventou eu e você. hoje, ele deve estar ocupado com o acabamento de algum novo projeto. afinal, quem está com o poder? o cientista ou o monstro? o grande problema é que essa cambada de imbecis metidos a intelectuais se acham muito mais interessantes do que de fato são. ficam perambulando por ai balbuciando discursos que tem como uma única conseqüência delinear fronteiras culturais como faziam os nambiquaras até bem pouco tempo atrás. é como se a tv habitasse o lado oposto de um eixo horizontal que se inicia lá onde estes farsantes registram editorialmente suas mentiras.
mas não sejamos tão severos. outro dia, a rede globo anunciou a apresentação de uma música inédita do gonzaguinha, e depois, enquanto a música era executada (não por ele, mas por um desses grupinhos orgulhosos de sua higiene sonora), fiquei pensando onde estaria o áudio-original. e ele apareceu. não mais que uns poucos segundos. a gravação era abafada, a voz seca, mas era o original. logo depois, corte, e o grupinho voltou a executar a música. por que não executaram a canção inteira na voz do próprio gonzaguinha? pareceu-me o típico caso “cuidado com o que as crianças vão pensar!”. e isso de fato é um problema grave, porque ficamos o tempo inteiro com essa mania de fazer de conta que somos melhores quando estamos maquiados. será - como nos pergunta bernard shaw - que somos nós fascinando a todos com as nossas melhores roupas, ou somos nós escondendo os chinelos do olhar alheio? espero que quando o primeiro marciano botar os pés sobre a terra, encontre uma tv ligada pra entender um pouco mais sobre eu e você.
Marcadores: panfletos
morangos silvestres
"minha peça começa com o ator que desce à platéia, estrangula um crítico e, de um livrinho preto, lê todas as humilhações que sofreu e de que tomou nota. depois vomita sobre o público. em seguida, afasta-se e dá um tiro na cabeça".
Marcadores: apresentação
