quarta-feira, 19 de setembro de 2007

nazistas

se ergues da justiça a clava forte,
verás que um filho teu não foge à luta,
nem teme, quem te adora, a própria morte.
fragmento do hino nacional da república federativa do brasil.

kelly samara carvalho dos santos queria conquistar o mundo. para atingir este objetivo, saiu de casa aos 15 anos, em pouco tempo adotou o nome de kelly tanchesi e passou a aplicar golpes e furtos em quem quer que caísse na sua frente. uma de suas últimas vítimas foi a aposentada campos de souza, de 84 anos. a pobre senhora fez o seguinte relato à folha de são paulo: "eu caí na rua, ela me ajudou e me levou até em casa. depois voltou para ver se eu estava bem, pegava o celular e fingia que conversava com o pai, que seria dono de loja da oscar freire, pedindo que ele me desse um emprego para eu ter uma atividade. um dia, sem eu perceber, roubou meu talão de cheques".

adolph hitler, que não perdia seu tempo esperando aposentadas caírem na sua frente, foi um pouco menos ambicioso, mas também queria conquistar o mundo. e ao contrário de kelly tanchesi, ele acreditava no que dizia. conquistar o mundo para ele significava torná-lo um lugar melhor para se viver. tal qual os brasileiros, ele acreditava que os seus risonhos lindos campos tinham mais flores e que seus bosques tinham mais vida. além, é claro, de também crêr que fazia parte de um povo distinto dos demais: o povo germânico era belo, forte, impávido, colosso e, acima de tudo, gigante pela própria natureza! hitler tinha, inclusive, uma teoria para explicar a natureza dessa grandeza:

“tudo neste mundo pode tornar-se melhor. toda miséria pode tornar fecunda a energia humana e toda opressão pode suscitar as forças que produzem um renascimento moral, enquanto se conservou o puro sangue. mas a perda da pureza do sangue destrói para sempre a felicidade interior, rebaixa o homem para sempre, tendo indeléveis conseqüências corporais e morais. é no sangue, exclusivamente, que reside a força ou fraqueza do homem. os povos que renunciam a conservar a pureza de sua raça renunciam à unidade de sua alma.”

não vim aqui defender sua teoria, o seu método, nem sua técnica de trabalho. isso seria o mesmo que lutar, por exemplo, contra o tabagismo ou o uso de drogas (o nazismo assumiu muitas formas ao longo das últimas décadas). minha intenção é demonstrar que a tese de hitler não era muito diferente da tese dos primeiros austrolopithecus. quando o macaco de kubrick descobre que um pedaço de osso pode se tornar uma arma, e que se jogada aos céus ela pode subitamente se transformar numa espaço-nave, ele estava fundando aquilo que seria o alicerce de todas as sociedades humanas: a idéia de que nós, em oposição ao outro, ao distante, ao diferente, somos seres dotados de uma superioridade indiscutível. até hoje, nos dias de festa, alguns dos bons selvagens de rosseau estão fraternalmente na amazônia saboreando funcionários da funai no tucupi. por que quando pensamos em termos humanitários sempre colocamos à frente de tudo, com gloriosa satisfação, nosso orgulho grupal?

a coisa toda começa no planeta, quando nos preocupamos com o que vai ser da coca-cola quando as fontes de água potável do mundo se esgotarem; passa pelo problema dos estados nacionais - e aqui cada um quer para sí a maior fatia do bolo, seja lá o que esteja ocorrendo na áfrica. e assim caminhamos em ordem descrescente até chegar no problema da suburbana que viu na tv que quando comprar roupas de estilistas famosos namorará, enfim, o fábio assunção. o que tudo isso deixa claro é que o nacionalismo e todos os seus parentes próximos são formas amplificadas de egocentrismo. mas acredito que isso todo mundo já sabe. o que ninguém sabe é que hitler nasceu na áfrica há duzentos ou trezentos mil anos e que o maior culpado pela eclosão da segunda guerra mundial foi o mickey mouse.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

humildade

I
mas eu acho que no meu caso não é falta de humildade. eu só procuro ser verdadeiro comigo mesmo. meu psiquiatra não me conhece, mas eu me conheço. ontem, por exemplo, descobri que tenho mais de três defeitos.
scrap à madre teresa de calcutá.
s/d
II
antes que os bastiões da moralidade me expliquem que o garfo deve ficar na mão esquerda e a faca na mão direita, defendo-me com spinoza: "humildade não é virtude, mas contemplação da própria impotência".

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

o almoço

sexta-feira passada marquei com uns amigos passar o final de semana na praia. acordei cedo, preparei meu almoço, tomei banho, organizei a mochila, separei uns livros e só quando cheguei na parada de ônibus lembrei que tinha esquecido de almoçar. não preciso falar que quando voltei pro apartamento encontrei um defunto sentado em cima do fogão rindo da minha cara.

troféus

outro dia lucy in the sky with diamonds escreveu me provocando: "malcolm robinson e suas verdades axiomáticas, ou seria malcolm robinson e suas viagens lisérgicas?". hoje, foi a vez dela:
"eu nunca ganhei nada. só um terceiro lugar no intercolegiais. mas a culpa não era minha, era do esporte ser coletivo. minha mãe deveria ter me colocado na sinuca desde cedo. hoje estaria rica e cheia de troféus."

slogan

em “investigações filosóficas” wittgenstein afirma que o “significado de uma palavra é a sua utilização na linguagem”. tese controvertida. na última quinta-feira, em entrevista ao diário catarinense, um estelionatário nos mostra como isso funciona na prática:


repórter: vocês estão em quantos ai?

golpista: nós estamos aqui em seis.

repórter: vocês estão em um presídio?

golpista: é. estamos. nesse local ai mesmo. na faculdade mesmo.

repórter: só no mesmo presídio são vários golpes aplicados?

golpista: aqui comigo, na empresa, só tem eu. aqui tem outra empresa que tem dois. é tudo na mesma galeria. tudo no mesmo slogan.

monday

monday is a wonderful place to die.

gregor samsa

malcolm: nossa, meu domigo foi uma merda. acordei tetraplégico como um vegetal. preferia ter me transformado num monstruoso inseto.

marlene: eu também acordei assim e só conseguia realizar a fotossíntese. mas uma amiga me chamou pra comer chilli. aí quando vi, já tinham copos de chopp e de dry martini pela mesa. tinha voltado a ser gente.

sábado, 8 de setembro de 2007

a beata

pater noster,
qui es in caelis, sanctificetur nomem tuum.
adveniat regnum tuum.
fiat voluntas tua, sicut in caelo et in terra.
panen nostrum quotidianum da nobis hodie.
et dimitte nobis debita nostra, sicut et
nos dimittimus debitoribus nostri.
et ne nos inducas in tentationem: sed libera nos a malo.
amen.

hoje

hoje? não sei ainda. eu tava pensando em me matar, mas descobri que é muito difícil se matar no meu apartamento. não dá pra se jogar da janela. não tem corda, e se tivesse eu não teria onde me pendurar. eu não tenho armas de fogo. se esfaquear não parece muito legal. mas alguém me disse que se eu deixar a saída de gás do fogão aberta e me trancar na cozinha pode dar certo. mas o gás tem um cheiro insuportável. é o cheiro que eu sinto por todos os lados quando eu estou de ressaca. então, resolvi continuar vivo. ainda não sei o que vou fazer. qual é o plano?

scrap a juliette lewis.
08.IX.07

o mágico

a bíblia é um livro curioso. se tu falas com um católico e pedes pra ele te explicar o fenômeno da reprodução de um mamífero através de uma costela, ele vai logo dizendo, "calma, calma, isso é metafórico!". e depois eles ainda querem que tu acredites que jesus era mágico.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

etnia inferior

(...)

não vou nem comentar essa história de etnia inferior - não tem antrópologo escroto do mundo que diria uma coisas dessas! mas até que o verso é bonito. coloca ai mais dois ou três desses que dá pra compor um belo poema anti-modernista.

(...)

eu não quis refutar a tua tese sobre a etnia inferior. eu só disse que ficava bonito num poema. quem sabe de jornalista escrota tu não passas a poeta gente boa. acho que até o george bush compraria os teus livros!

(...)

por falar em fúzil em baixo do travesseiro, não me lembro onde li - mas foi ontem, ou quarta - uma matéria sobre um porco três metros e 500 kg - alguma coisa do tipo. o melhor de tudo foi a foto do porco (ou do elefante, não sei como os biólogos conseguem diferenciar um do outro) morto, e sobre seu corpo o algoz: um americano de 12 anos com um rifle na mão. sobre a violência, acho que é isso mesmo. fizeste uma arqueologia da violência nos estados unidos, mas pelo que tu falas, etnia inferior é a humana mesmo. conheço um cachorro, um personagem de quadrinhos chamado dogbert, que diz numa de suas tiras: "eu gostaria de ser editor. pegaria trabalhos que levaram anos para serem escritos e acabaria com eles com uma pinçelada de minha caneta". e depois, na última tira, olhando com desdém para o leitor: "acho que não gosto muito de gente". estou com hobbes, maquiavel, nietzsche e dogbert.

scraps à lilian witfibe.
s/d

cinema

fiz um curta em homenagem ao lennon. como é fácil virar cineasta, músico, escritor, hoje em dia (na quarta, vi uma entrevista do domenico de masi na cultura, em que ele conta que um amigo dele diz "eu não compro obras de arte abstratas! eu mesmo as faço!"). eu baixei um programinha e roubei as cenas do youtube (raríssimas). meu único trabalho de fato foi fazer a montagem. tentei fazer uns cortes do tipo “os idiotas”, e pronto. peguei uma das músicas dele, escolhi um fragmento e depois toquei de trás pra frente, com um efeito delay no começo e no fim, e ai está o meu curta. tô esperando a yoko ono me processar. mas se nada disso der certo, amanhã de manhã o "the albert hofmann's experience" estará lançando orgulhosamente seu primeiro álbum: a hard days night!

scrap à linda eastman.
s/d

árbitro de xadrez

ser árbitro de xadrez só é divertido quando alguém joga as peças pra cima, sai ofedendo todo mundo ou ameaça o adversário de morte (acredite, eu já vi tudo isso acontecer). normalmente é fazer cara de homem sério e honesto, e ficar andando pra lá e pra cá, fazendo de conta que está prestando atenção em tudo. eu prefiria arbitrar uma luta de boxe.

scrap à uma thurman.
s/d

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

o batismo

pesquisei no wikipedia mas não encontrei o significado de “felizes para sempre”. pelo menos na página tinha algo sobre a felicidade dos imperialistas espanhóis do século XVI:

“já era noite alta quando francisco pizarro decidiu executar atahualpa. depois de ser conduzido ao lugar da execução, atahualpa implorou pela sua vida. valverde, o padre que havia presidido o processo propôs que, se atahualpa se convertesse ao cristianismo, reduziria a sentença condenatória. atahualpa concordou em ser batizado e, em vez de ser queimado na fogueira, foi morto por estrangulamento no dia 29 de agosto de 1553.”

judeus

malcolm: sim. concordo com você. judeus têm mesmo uma coisa de se ajudarem. no século I, por exemplo, ajudaram jesus a reencontrar o seu pai. se gugu liberato estivesse por lá, cobriria o evento e todo mundo ia ficar emocionando acompanhando tudo pela televisão.

marlene: mas também jesus vacilou. foi ingênuo. como todo filhinho de papai.

longevidade

o dr. albert hofmann fez 101 anos em janeiro último. e ele diz que o segredo de sua longevidade se deve ao hábito de comer um ovo cozido e tomar uma dose de lsd todas as manhãs. acho que a parte do ovo deve ser mentira.

31 de agosto

hoje é o dia internacional do blog. achei isso uma coisa meio difícil de entender. fui pesquisar. o wikipedia diz que 31 de agosto é o dia internacional do weblog por ser a data que mais se parece com a palavra blog. não entendi nada, mas como não poderia deixar de ser, deixo aqui minha singela homenagem ao blogueiros de todo o mundo. a tira foi encontrada no blog de jef cândido, "aja ou compre ações", que por sua vez deve ter sido encontrado em um outro lugar (mas estou com preguiça de encontrar dados sobre a fonte original). segue minha dádiva e que sejam todos felizes para sempre! (ps. depois vou procurar no wikipedia o que significa "felizes para sempre".)

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

noções de etiqueta

marlene: mas medo mesmo sou eu quem provoco. não sei porque. por exemplo, um amigo meu acabou de me dizer que não é mais pra eu deixar mensagens pra ele no orkut. acho que ele pensa que minhas mensagens são amaldiçoadas ou vai ver que acredita que eu não tenho noções de etiqueta ... eu posso?! eu hein!

malcolm: olha, marlene, não é mais pra você deixar mensagens pra mim no orkut. suas mensagens são amaldiçoadas e você não tem noções de etiqueta.

mário quintana

voltando atrás contra o millôr, contra a gangue da pqp e contra mim mesmo: fumar não é um vício idiota coisa nenhuma; fumar é uma forma de arte! talvez a maior delas! mário quintana já dizia sabiamente: "desconfia dos que não fumam: esses não têm vida interior, não tem sentimentos. o cigarro é uma maneira sutil, e disfarçada, de suspirar".

alguém tem um cigarro ai?

CAPÍTULO I: A EXPULSÃO
eu pensei que seria mais divertido, mas acabei de ser expulso da seita orkutiana “vá fumar na pqp”. tudo porque criei um fórum convidando os seus seguidores a dar uma passeio na postagem “será que posso fumar no meu blog em paz?”. eles são realmente alérgicos a discutir suas idéias com estranhos. suas mães devem ser pessoas orgulhosas.

os fóruns “já te queimaram com cigarro?”, “meu tio fuma muito”, “fumante devia comer a bituca!!!”, e similares, continuam lá. firmememente. não é o clube da luluzinha, mas parece.

felizmente, antes da expulsão, ainda deu tempo de eu receber e copiar o comentário de um desses fanáticos para preparar uma resposta. aqui está o comentário de marcelo (provavelmente o autor da denúncia que resultou na minha expulsão):

“Pois é, o próprio sujeito que defende o fumo reconhece que fumar é um vício idiota. E ainda esquece de mencionar que o fumante além de arruinar o próprio corpo, arruina também o dos outros com esse vício idiota. Então já está mais no que na hora de se acabar de uma vez por todas com esse vício nocivo, babaca e idiota. Fumantes, vão fumar na PQP e parem de encher o saco dos outros com essa porra.”

CAPÍTULO II: A RESPOSTA

marcelo pqp faz alusões ao texto de millôr fernandes, citado na postagem já mencionada. li, copiei, escrevi a resposta no word, mandei pro fórum e quando cliquei no botão "enviar", percebi que alguma coisa tinha dado errado. voltei pra página principal da seita, e ai pude constatar o óbvio: eles não gostaram de mim. já tinha sido expulso de salas de aula, de bares, de apartamentos, mas de uma seita foi a primeira vez. confesso que estou até meio emocionado.
segue a resposta:

“caro, marcelo.

nós reconhecemos que o hábito de fumar é um vício idiota. não há dúvidas. mas o texto do millôr é tão dificil de entender assim? ninguém está defendendo o fumo, mas o fumante - e o direito, assegurado por lei, que ele tem de fumar. este país também é meu, e segundo as regras constitucionalmente estabelecidas, eu ainda tenho esse direito.

dou-lhes uma idéia: mudem as leis deste país, como fizeram os americanos na década de 30, em relação ao consumo de álcool. aquele bang-bang foi genial. ou façam como os brasileiros, que com o mesmo tipo de ato, fundaram a maior multinacional do mundo: o narcotráfico (pelo menos, neste ramo da economia, ninguém pode duvidar de nossa competência).

pra terminar, eu não fumo ao lado de não-fumantes; eu não ando com não-fumantes; eu não ando, sequer, com boas companhias. e só não vou fumar na pqp, porque tenho um blog pra fumar em paz. não vou, portanto, de acordo com as tuas próprias palavras, arruinar o seu corpo. se bem que isso seria uma brincadeira divertida.

saudações de um fumante ortodoxo.”

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

o problema

acabei de descer pra comprar cigarros, exatamente no mesmo lugar onde eu compro cigarros há pelo menos um ano e meio. e quando eu cheguei, a moça do caixa já foi me perguntando "é um carlton red, né?". depois eu não conseguia lembrar quanto é que custava uma carteira de carlton. fiquei pensando ... eu tinha dinheiro trocado, mas fiquei em dúvida entre dar dois ou três reais, depois pensei em perguntar quanto custava, mas fiquei constrangido, e no final, dei uma nota de dez pra resolver o problema.

paixões

I

pra começo de conversa, eu não acredito em nada do que a psicologia me diz. me bastam as histororietas do meu psiquiatra. prefiro até as teses da sociobiologia. estas, ao menos, são divertidas.

II

os acréscimos - cor, volume, timbre - não estão na balança. senão, não seria uma paixão platônica.


III

eu não me considero "quase não-patológico", eu me considero "monarquicamente-patológico". então, talvez esteja fora do grupo a qual tu te referes.

IV

ao contrário dos "quase não-patológicos" e dos "patológicos", eu acredito que um relacionamento que durou mais de vinte minutos já deu certo. não entendo quando vocês ficam se perguntando umas as outras, depois de cinco anos de namoro ou casamento, porque o relacionamento "não deu certo".

V

a questão não é realidade ou fantasia, mas as incontroláveis pulsões da alma.
scraps à anne-marie freud.
s/d

reacionários

I

não estou sendo irônico. juro. ele tem direito de acreditar no quiser, não? ele é uma cara legal pra estar contigo numa mesa de bar. não é um asno reacionário. é um gênio reacionário. eu adoraria ter gente como hitler e mussolini na minha mesa.

VII

o problema do freud é que ele ia passar a noite inteira indo e vindo do banheiro, e nas suas voltas, fungando, ia ficar calado aficionado pelo hitler. mas este, tenho certeza, nem ele conseguiria explicar.
scraps à julliet lewis.
s/d

o movimento das peças

outro dia, um dos meus alunos me perguntou por que o cavalo não andava em “C”. eu lhe respondi: "pelo mesmo motivo da torre não se mover em T".

a borboleta

I

a adriane galisteu sabe exatamente de quantos dólares de ambição a gente precisa pra construir um bom casamento. muito embora, ela prefira um defunto famoso do que um bom casamento - por amor a profissão. é uma mulher de sorte.

IX

não acho que só as mulheres participem desse jogo. mas eu estou fora. me deixaria mais animado ter participado do ataque às torres gêmeas. aliás, já me arrisquei bastante nessa vida. minha mãe que o diga. ela sabe, eu também tive sorte. não exatamente o mesmo tipo de sorte da borboleta galisteu. eu não vendo defuntos. eu os coleciono.

briefing

quanto é que tá a grama do cinema? quanto é que tá a resma da escultura? quanto é que tá a dúzia da pintura? e o preço do litro da música? quanto custa uma garrafa de fotografia? e um quilo e meio de literatura?

será que posso fumar no meu blog em paz?


igor luis manriques, fundador da seita orkutiana “vá fumar na pqp”, com mais 216 mil seguidores, me surge na tela do computador com o seguinte discurso:

“É inacreditável! Já estamos no século 21 e ainda tem gente q fuma. Dá pra acreditar? E o pior, fuma do seu lado. Poucas coisas podem ser + estúpidas q acender 1 cigarro e pô-lo na boca. Além do mau cheiro, do amarelamento dos dentes, o cigarro causa câncer, enfizema, prejudica a circulação sangüínea, provoca danos vasculares, derrames cerebrais, entupimento das artérias, crises de alergia, asma, rinite alérgica, mau hálito, mau cheiro, danos ao feto e impotência. Argumentos ñ faltam, até p/ os + materialistas: basta calcular o quanto gasta 1 viciado em nicotina. Agora me digam, por favor: aquele velho argumento d quem fuma de ter o direito de se suicidar aos poucos e de que ñ prejudica ninguém, é válido? Alguém acredita que um fumante pode domar a fumaça de seu cigarro para q ela ñ vá aos pulmões d quem”

o texto termina assim mesmo, e dá pra perceber que o rapaz escreve bem. mas como eu não gosto de chutar defunto, vou deixar que millôr fernandes gentilmente o faça por mim:

"enorme percentual de fumantes dispostos a continuar fumando, apesar de ameaças de câncer, enfizemas e outras quizílias. o fumo é realmente um vício idiota. mas os fumantes que persistem em fumar têm um vício ainda mais idiota - a liberdade. provando que nem só de pão, e de saúde, vive o ser humano. além do fumo ele aspira também gastar a vida como bem entende. arruinando determinadamente seu corpo - um ato de loucura - o fumante ultrapassa a pura e simples animalidade da sobreviência sem graça.”

campari

sábado passado, numa festa chamada “ravemetal”, uma garçonete ameaçou chamar a polícia porque eu reclamei que ela estava me vendendo um copo de gelo no lugar de uma dose de campari. para evitar maiores constrangimentos, falei a ela: “moça, por gentileza, eu quero mudar meu pedido: eu quero ser preso”. mas novamente não fui atendido. lugarzinho complicado. pelo menos o gerente aceitou a devolução do copo de gelo, e eu pude substituí-lo por uma dose de gim. sem gelo.

domingo, 26 de agosto de 2007

só uma ressalva

em “resposta do colonizado”, quarto item, escrevi: “o que os portugueses fizeram no brasil foi pior do que os alemães fizeram com os judeus na década de 40. hitler é um santo, perto dos imperialistas portugueses dos séculos XV e XVI”. na sequência, recebi o seguinte comentário de jeferson cândido hitler dos santos: “só uma ressalva: a comparação com hitler. são séculos distintos, as justificativas para o extermínio de índios e judeus são muito diferentes. veja ‘arquitetura da destruição’, de peter cohen. um documentário lindo sobre algo tenebroso”.

eu pensei que estava claro que eu estava me referindo a década de 40 do século XX e não a dos séculos XV e XVI. no mais, concordo plenamente - e não disse o contrário - que as justificativas para o extermínio de índios e judeus são muito diferentes. não preciso ver filme de ninguém pra entender que seres humanos são facilmente impressionáveis - e que os espanhóis só não filmaram aquela carnificina toda no peru porque francisco pizarro tinha esquecido sua câmera digital em madrid.

conchas

a postagem anterior é, na verdade, um trecho de um diálogo que mantive com lucy in the sky with diamonds. ela falava que gostava muito de conchas quando criança. e eu falei a ela que achava um absurdo a existência daquilo, e ficava me perguntando como é que um oceano podia caber dentro de uma casa tão pequena. e ela me alertou: “conchas são a porta de entrada para o mundo das drogas”.


um pouco mais tarde, lucy in the sky with diamonds me disse:

“mas eu também dava as minhas viajadas quando criança. acho que foi de tanto ouvir conchas que eu pensei em ser astronauta. mas quando me disseram que tinha que saber matemática eu desisti. também quis ser empregada doméstica. eu via a empregada lá de casa cortando a carne e achava aquilo tão macio e tão legal que disse pra mamãe que quando eu crescesse queria ser empregada doméstica. nem preciso dizer que a dona lourdes não gostou nada nada dessa história. aí ela me falou nesse negócio de estudar, de fazer pós e mestrado e que a vida é dura e que sem estudo não se é ninguém nessa vida. cai na dela direitinho!”

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

a experiência

o meu talento culinário se revelou desde muito cedo. eu ficava impressionado vendo a minha mãe cozinhar. ficava louco. e dizia pra ela que queria cozinhar também. um dia, ela cedeu aos meus apelos e me ensinou a fazer ovos fritos. fiquei extasiado com a experiência. o problema é quando ela saia, eu ia fazendo ovos fritos, um atrás do outro, em seqüências intermináveis. depois, é claro, eu jogava tudo fora. em pouco tempo, fui proibido de fritar ovos. foi a primeira vez na vida que alguém me proibiu de fazer alguma coisa que eu realmente gostava. depois descobri o código penal, e que o mundo era bem pior do que eu imaginava.

sil^^encio

no orkut: uma conversa perpendicular:

carmem: Ei ceis dois voc^^es acham que o sil^^encio é a resposta que devemos dar aos loucos? é sério! please! Beijos!

lygia maria: ela tá perguntando pra mim tb? é isso? olha, se for... eu acho que o silêncio é a resposta que se deve dar aos burros. com os loucos é bom trocar umas idéias.

malcolm: faço minhas as palavras da lygia. mais alguma pergunta?

carmem:

malcolm: nenhuma pergunta? então, eu tenho uma: "voc^^es" e "sil^^encio" são formas de neo-miguchês?

carmem:

lygia maria: e agora?! burro ou louco?

carmem:

mulheres

eu não gosto de pensar que mulheres têm fígado, pulmões ou intestinos. isso não me atrai. vacas pastando não estimulam o meu apetite.

pulmão

a máxima de millôr fernandes “o xadrez é um jogo chinês que aumenta a capacidade de jogar xadrez” e tão lógica quanto a frase “quando jogadores de futebol não estão correndo atrás de uma bola, eles têm o preparo físico de um jogador de bilhar”.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

eu era bonito

eu conheci adriano nogueira dos santos numa matéria de jornal intitulada “taxistas vão atrás de viciado em crack”. em uma única semana, adriano assaltou três taxistas, todos de uma mesma ponto. pra ele, a culpa foi da droga. e ele diz: “a sociedade não sabe o que é o crack. eu já fui um cara que tinha trabalho. eu era bonito”. a matéria me interessou porque meu amigo freak kerouac phineas me alertou recentemente sobre a má influência que o meu blog pode exercer sobre os jovens. eu pensava que crianças navegavam na internet pra acessar o orkut, o msn e sites de pornografia. não sabia que elas liam blogs. muito menos que meu blog podia estimular alguém a consumir crack ou a assaltar taxistas. fiquei preocupado.

pra não ficar nenhum mal entendido aqui, vou tentar ser o mais didático possível. queridas crianças, leitoras de blogs: lavem suas mãos antes de comer, respeitem os mais velhos, não falem com estranhos, não tomem refrigerantes, ajudem pobres velhinhas e cegos a atravessarem ruas, não discutam com seus pais, respeitem seus professores, não brinquem com fogo, façam regularmente seus deveres-de-casa, e, principalmente, não roubem taxistas. sobre consumo de drogas eu podia dar uma porção de conselhos, mas deixarei que a ex-mulher do mick jagger fale alguma coisa a respeito: “eu não falo sobre drogas com meus filhos, eu só peço a eles que olhem o keith richards.”

domingo, 19 de agosto de 2007

mãe natureza

a mãe natureza não é sábia coisa nenhuma. ela tem problemas mentais. quando tá aborrecida, destrói tudo o que vê pela frente. quando finalmente o sol nos engolir, vou acreditar que a mãe natureza é sábia.
scrap à ministra marina silva

gorilas de orelha amarela

sim. um animal. um animal cultural. livros de sociobiologia servem para os americanos porque eles são os únicos quadrúpedes da espécie sapiens. na minha opinião, uma tribo de gorilas de orelha amarela nada nos tem a dizer sobre o aumento do número de divórcios nos estados unidos da américa.
scrap à marlene dietrich

biologia

eu desprezo completamente a biologia na questão do amor. em relação a minha gastrite ela tem razão.


scrap à marlene dietrich
s/d

moradores problemáticos

um pouco mais de l. m. bergman:

I

achei o que? minha cara de mulher séria e honesta ou o rivotril? bom, o rivotril não teve jeito, não achei. já minha cara de mulher séria e honesta também não. mas como hoje é sexta-feira, creio que não vou precisar dela até segunda.

II

adiaram aquela minha reunião com o síndico. então, hoje o zelador me perguntou se a reunião poderia ser na quarta-feira e me mostrou um papel pra eu assinar. quando eu vejo tá escrito: "moradores problemáticos" e abaixo uma lista com alguns nomes. ou seja, não vou sozinha. vai a gangue toda. melhor assim, quam sabe no final a gente não faz uma passeata.

III

como forma de minimizar o incômodo, vou sugerir que coloquem a gente nos três últimos andares do prédio. ou então que eles mudem todo mundo logo pro salão de festas.

tratados

esses são textos do meu irmão. frank. o primeiro deles foi escrito há muito anos. ele me trás reminiscências do surgimento e da queda dos paradigmas científicos ao longo da história. tenho certeza, thomas kuhn ia gostar. o segundo foi escrito ontem. ontem. ontem. ontem. amanhã.

O BURCACO DA FECHADURA


“eu no meu quarto. eram duas horas da manhã e eu não conseguia dormir por causa dos carapanãs. eu estava irritado porque eu havia detetizado o quarto um dia antes e eles continuavam ali. então comecei a pensar como seria bom se os carapanãs fossem inteligentes. porque se fossem inteligentes pensariam: “ontem ele dedetizou o quarto e pode detetizar hoje de novo. vamos fugir!”. mas depois pensei que assim estariam sendo burros, porque se fossem espertos de verdade pensariam: “ele de detetizou o quarto e pode querer detetizar hoje de novo, mas caso ele se levante pegar o DDT no armário, nós fugimos!”. mas depois pensei que na verdade estariam sendo burros porque com o quarto fechado não teriam como fugir. mas depois pensei que estariam sendo inteligentes já que saberiam que poderiam fugir pelo buraco da fechadura.”

SE EU SOUBESSE QUE
buñuel: frank?
frank: sim.
buñuel: você não pode estar levando isso a sério.
frank: claro que eu não estou lavando isso a sério.
buñuel: mas você enlouqueceu.
frank: claro que eu enlouqueci.
buñuel: e eu já estive em lugares que você nem imagina.
frank: não consigo mesmo imaginar.
buñuel: imagina.
frank: imaginei.
buñuel: sim.
frank: frank?
buñuel: mas você é o frank!
frank: claro que sou o frank.
buñuel: sim.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

plantadores de tomate

a mulher de césar não deve apenas ser honesta, mas parecer honesta.
provérbio espanhol

eu também acho o veríssimo genial. algumas pessoas da chamada alta literatura acreditam que ele produz uma literatura menor, justamente porque elas usam a arte não tanto pelo exercício de fruição a que ela de fato se destina, mas pelo prazer de usá-la como um instrumento sádico de delimitação de fronteiras culturais. é preciso deixar claro pra todos que eles nasceram em paris e não em teresina. ou, indo direto ao assunto, como é algo que se tornou popular, não pode ser bom.

pierre bourdieu, num texto que se não estou enganado chama-se “o processo de autonomização da obra de arte”, explica isso de uma forma bastante clara. quando a burguesia assumiu o controle das forças produtivas no século XIX, precisava de um conjunto de artefatos que a diferenciasse das classes populares - de onde, inclusive, ela se originou. os burgueses não eram aristocratas, mas gente do povo, pequenos comerciantes que com o tempo se tornaram bem sucedidos economicamente. sob essas circunstâncias criou-se o ambiente adequado para constituição do processo de profissionalização e independência dos artistas, pois estes, tendo que atender a uma demanda absurda de pinturas, esculturas e desenhos, pelos burgueses, passaram a viver exclusivamente da arte que produziam – e não de um emprego no funcionalismo público, por exemplo. aqui se consolida finalmente as condições ideais para a autonomia da arte - e, por extensão, a criação das muralhas culturais que separariam o povo do próprio povo.

se pensarmos bem, até hoje é assim, e, por exemplo, se um arquiteto ou um artista plástico quer ser bem sucedido, ele tem que participar do circuito da “high society” com suas máscaras de sorrisos, exatamente como as balaclavas protegiam os soldados ingleses do frio na guerra da criméia. mas mesmo algumas pessoas da chamada “contracultura” ou da “roda intelectual-artístico-boêmia” (pra usar um palavrão do gilberto velho), fazem a mesma coisa. é incrível como eles têm horror a consumir o mesmo tipo de bem que uma pessoa mais simples (apenas no sentido burguês da palavra) consome. quer dizer, passam o tempo inteiro falando aquela besteirada sobre a burguesia, e no final das contas, fazem a mesma coisa que os burgueses. eles têm horror não a obra em si, mas ao fato dela está sendo consumida pelo povão. com machado de assis: "a onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal".

o contraponto desse estado de coisas é que em nome da virtude e dos bons costumes a gente tem que passar o dia inteiro ouvindo todo tipo de lixo musical, enquanto estamos ocupados na cozinha de um restaurante fino lavando as louças, os talheres e as panelas da democracia. enquanto isso, o preço da cesta básica não para de aumentar porque os plantadores de tomate continuam fugindo pra são paulo com um violão em baixo do braço.

adaptação de e-mail resposta à marlene dietrich.
s/d

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

segunda-feira

eu tentei explicar pro pessoal da chevrolet coporation como eles podiam ganhar dinheiro com o meu blog, mas eles me mandaram voltar na próxima segunda-feira.

os pulsos já estão cortados

eu tenho a página que me indicaste entre os favoritos. aliás, outro dia um amigo meu veio aqui, e me mostrou um site. mas achei muito leve. depois da foto daquela passageira sem cabeça (e elegantemente sentada como se nada tivesse acontecido), nada me deixa tão impressionado.

(...)

é que aquela foto tá bonita. só faltou um cigarro acesso no meio do pescoço (ele não tinha mais boca, né? quer dizer, tinha, mas a cabeça estava em outro lugar).

(...)

boa pergunta. em primeiro lugar, eu não queria morrer ainda. de forma nenhuma. agora se tivesse que escolher, escolheria uma morte rápida e sem dor. como qualquer homem. só isso. vocês mulheres são mais vaidosas, talvez não iam querer estar expostas por ai com o corpo pro lado e a cabeça pro outro. talvez preferissem uma morte lenta e dolorosa a perder a pose. depois de morto, façam o quiserem comigo.

(...)

é ... acho uma boa idéia. pelo menos, pulsos cortados e veias expostas não borram a maquiagem de ninguém.


scraps à björk guðmundsdóttir.
s/d

crianças remelentas

sim, eu sei, mas as crianças remelentas tem que aprender primeiramente o que é um livro. elas não tem a mínima noção do que se trata. e não estou falando da construção de fronteiras culturais, de pose de enciclopedista, ou dos óculos e das longas barbas da arrogância; mas do cantar suave das fotografias. todo mundo gosta de ler, como todo mundo gosta de conversar. isso é muito claro pra mim. o problema é que elas não sabem nem que livros são escritos por pessoas. durante a graduação eu ouvia coisas do tipo "na apostila da professora fátima tem uma parte que diz" ... um curso de sociologia, e "o capital" de karl marx passa a ser a apostila da professora fátima!
scrap a simone de beavoir.
s/d

fernando pessoa

eu tenho um amigo que diz que a antropologia, e tudo que vem do centro de filosofia e humanas da ufsc, não serve pra nada. relendo um fragmento de meu diário de campo, confesso que fiquei inclinado a acreditar nisso. segue o texto:

“Começo da tarde de uma quarta-feira no bairro universitário. Tendo já almoçado no r.u., dirigia-me para casa, quando encontrei um dos sujeitos à caminho de um pasto, com objetivo de colher cogumelos. Fui convidado para ir junto. Aceitei. Então tomamos um ônibus e nos dirgimos a ele. Lá, ainda com alguma dificuldade, conseguimos encontrar uma quantidade que na hora pensarmos não ser suficiente para os dois. Comemos os cogumelos no próprio pasto, e nos dirgimos para um bar. Estava muito quente, e uma cerveja não pareceu uma má idéia. No meio da segunda cerveja, para minha surpresa, as coisas começaram a se modificar. Senti que as batidas do meu coração tornaram-se mais rápidas, o que me deixou meio assustado. Fazia tempo que eu não participava de experiências do tipo. Também fiquei bastante intrigado com as fotografias das capas das revistas da banca que ficava ao lado. Elas pareciam estar respirando. Então, subitamente levantei-me agitado e falei a K que precisava sair dali, pois não estava me sentido bem. K me disse que a pupila dos meus olhos estavam dilatadas. Ele parecia muito tranqüilo. Decidirmos ir a praia. O trajeto durou cerca de trinta minutos. O efeito dos cogumelos pareceu atingir seu ápice durante o percursso. Quase não conversamos durante isso. (...) De frente para o mar, sentado em meio as pedras, senti-me aliviado. Então conversamos sobre música, poesia e sobre a experiência de estar vivo. (...) Após um momento de silêncio, senti-me deprimido, pois tinha planejado escrever naquela tarde e estava ali irresponsavelmente contemplando o mar. Falei isso a K. Disse que era absolutamente frustrante ter que conviver com isso. Se por um lado, estava achando a experiência magnífica, por outro, estava bastante chateado com o fato de não estar fazendo o que havia planejado. A questão era saber como conciliar as dimensões dessa existência dúbia. K, após um momento de silêncio, e algumas poucas palavras, recitou-me um poema de Fernando Pessoa: "Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim, em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive”. Adoro Pessoa, e posso dizer que conheço relativamente bem seus poemas, mas a maneira como as palavras iam se apresentando deslocavam a sua audição para um universo onde não haviam poetas, escritores, ou coisas desse tipo. O que havia ali eram poderosas palavras, que talvez se tivessem sido apresentadas em outras circunstâncias não revelariam toda a sua força. Naquele momento, posso dizer que compreendi Fernando Pessoa. E isso mudou a minha vida.”

remistas

não resisti. essa eu tive que publicar. é da sobrinha do ingmar berman. pobre torcedora do paysandu.


"estava eu de ressaca, passando mal, jogada no sofá vendo tv, quando é exibida a entrega da medalha de ouro para a equipe de ginástica rítmica no pan. e o que aparece atrás das meninas, enorme, gigante, pra todo mundo ver? uma puta bandeira com o escudo do remo! caráleo! vcs são muito presepeiros, mesmo, né?!

tive que tomar outro engov pra me recompor!"

comunidade científica

eu estou tentando fazer parte da "comunidade científica" do orkut, mas faz mais de um mês que a minha participação está pendente. será que pra participar dela tenho que enviar uma cópia autênticada de meu comprovante de insanidade mental?

monges

I
desistiu de entender? eu estou o tempo inteiro tentando entender. aliás, meu problema de ansiedade decorre justamente dessa necessidade de tentar entender. quem me dera não pensar em nada. ontem eu tava falando numa cachaçaria que os monges buditas passam dez anos meditando e outros dez calados pra chegarem num ponto de elevação espirtual em que não pensam em nada. eu cheguei a conclusão que uma parede faz isso com muito menos esforço - logo é mais evoluída.

II
eu também queria ficar sem pensar em nada, como os monges e as paredes. queria ficar assim o dia inteiro. é um sonho de infância. mas heroína é muito cara.

terceira consciência

logo depois da final da copa do mundo do ano passado, parreira elaborou uma curiosa teoria sobre o fracasso da seleção brasileira: “é muito difícil montar um time com tantos craques”. segundo esta teoria, a seleção brasileira teria melhores o oportunidades se tivesse sido formada pelos jogadores do paysandu. outros seres vivos da espécie “sapiens” costumam elaborar teorias sobre si mesmo, não menos curiosas. durante a década de 60, como nos mostra marvin harris, “a bruxaria voltou retornou como fonte considerável de excitação”, sob o postulado “a liberdade humana inclui a liberdade de crer!”.

um dos gurus do movimento, cujo nome não me ocorre agora, declarava na época que salvaria o mundo dos mitos da consciência objetiva. charles reich, outro feiticeiro, falava em “terceira consciência” e que para alcançá-la o homem deveria “suspeitar profundamente da lógica, do racionalismo, da análise e dos principios”. o único caminho para colocar “fim ao crime, acabar com a pobreza, embelezar as cidades, eliminar a guerra, viver em paz em harmonia conosco e com a natureza é abrir nossos espíritos à terceira consciência”.

expansão da consciência, unificação dos pensamentos e viagens mentais, misturados a ácido, cogumelos e maconha, nos aproximaria de jesus, buda e mao-tsé-tung. e também poderia nos fazer voar como um abutre pelos desertos mexicanos, como carlos castaneda nos alega ter feito. de acordo com o índio don juan, o chefe de castaneda, “homens de conhecimento” não escrevem teses, mas saem por ai voando, encontrando-se com cachorros transparentes e luminescente ou dialogando com mosquitos de cem patas. para esses feiticeiros, “a razão é uma invenção do complexo militar industrial”.

todos eles exaltavam, jutamente com os hippies, a excelência da vida das sociedades tribais, por isso andavam com rosas na cabeça, pinturas nos corpos e roupas esfarrapadas e coloridas. a pobreza e a mendicância eram o caminho para a salvação. o dinheiro, ao contrário, traria a infelicidade e o sofrimento aos homens. provavelmente, os que sobreviveram a terceira consciência estão hoje sentados confortavelmente em seus gabinetes, escrevendo seus artigos em laptops bem sofisticados. mas há sempre os incorrigíveis. nos corredores de centros de humanas e filosofia de universidades federais, ainda corremos o risco de tropeçar num jovem feiticeiro fanático. haja insenso pra tanta metafísica.

greta garbo

eu ainda estava tentando terminar a celeuma I, e tentando pensar num título melhor para a celeuma II da postagem anterior, quando percebi que greta garbo tinha me enviado um comentário. transformei-o num bate-papo:


greta: estranho ter que recorrer a um antropólogo para constatar que a geração de seres humanos (in utero) é diferente da geração de fezes (pelo estômago).

malcolm: quando estou confuso sempre recorro a alguém da antropologia pra me divertir um pouco. é pra eles que eu faço as minhas orações diárias. em relação às fezes e aos seres humanos, eu admiti, desde o início, que se tratava de uma pequena confusão minha. eu sempre pensei que se tratavam de seres da mesma espécie. e até que eles não têm um futuro muito diferente.

greta: mas o que causa mais questionamentos, é qual seria o equívoco do tal mischa titiev, dado a sua descrição tão seca e óbvia.

malcolm: a descrição de mischa titiev não é nem tão seca, e nem tão óbvia. ele diz, por exemplo, que em relação a vida dos primeiros hominídeos que “pode-se supor que as suas vidas estavam ajustadas para fazer face, em exclusivo, às necessidades do mundo biológico”. aproveitando-me de uma curiosa expressão cunhada pelo próprio titiev, ninguém que esteja vivo pode afirmar que os primeiros homínideos eram seres desprovidos de cultura. como logo veremos, a cultura é anterior ao homem. pergunte isso a um morto.

greta: pelo visto, atrizes de cinema da década de 30 têm algo a mais a dizer sobre a espécie humana, ou vai ver que nossa existência é, por natureza, escatológia.

malcolm: atrizes de cinema da década 30 são ansiosas demais pra isso. por essa razão, morriam de overdose vinte anos depois, tristes e solitárias dentro da suíte suja de algum hotel barato. agora, concordo com você, nossa existência é, por natureza, escatológica. quase desisti da postagem e da própria antropologia, depois desse comentário. não foi fácil pra mim, um neófito da empresa, ver o 150 anos de estudos antropológicos resumidos numa única frase. vocês, divas do cinema, são mais junkies do que beatniks, hippies, punks e donas-de-casa de classe média, mas sempre nos tem algo a dizer.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

tomando o chá de geertz ou como george bush perdeu seu emprego no afeganistão

celeuma I: qual o verdadeiro nome de george bush? francisco? adolfo?
I
até terça-feira passada, eu acreditava que os bebês eram seres gerados no estômago de suas mães. coisa simples. felizmente marlene dietrich, numa madrugada fria, alertou-me sobre existência de um estranho orgão chamado útero. fiquei muito impressionado com isso. no outro dia, busquei informações com o antropólogo russo mischa titiev e ele me disse o seguinte:


“Há muito pouco, no domínio do puro comportamento biológico, que possa diferenciar um membro da espécie Homo Sapiens de um indivíduo pertencente a muitas outras espécies de mamíferos, principalmente em relação aos grandes Primatas tais como os orangotangos, chimpanzés e gorilas. Uma vez que lhes seja proporcionado um ambiente favorável, os seres humanos podem desenvolver larga série de atividades, apenas com o seu equipamento biológico, geneticamente determinado e hereditário, por muito inadequado que este possa ser em certos aspectos. A título de exemplo bastará considerar os hábitos de vida dos primeiros hominídeos. Ninguém que esteja vivo sabe como é que as primeiras criaturas semelhantes ao homem realmente viviam, mas, partindo do princípio que seus corpos eram constituídos de forma muito semelhante à do nosso, pode ser instrutivo tentar imaginar o que eles faziam.

Como conjetura, pode-se supor que as suas vidas estavam ajustadas para fazer face, em exclusivo, às necessidades do mundo biológico. Involuntariamente os seus pulmões inspiravam oxigênio, os seus corações bombeavam sangue e as temperaturas dos seus corpos normalmente permaneciam num nível constantemente elevado. Sempre que se esforçavam, eles respiravam mais fundo do que habitual e sentiam-se cansados; quando tinham frios, os seus dentes rangiam e os seus corpos tremiam; quando tinham calor suavam; e sempre que se sentiam suficientemente cansados descansavam ou dormiam. Se os seus estômagos se contraíam eles sentiam as dores da fome e pensavam em levar comida às suas bocas, onde era umedecida, mastigada e enviada para o tubo digestivo. Quando havia pressão na bexiga eles urinavam e quando seus intestinos estavam cheios defecavam.

Os corpos masculinos estavam organizados de maneira a formar células espermáticas nos testículos e os corpos femininos a produzir células ovulares nos ovários. De tempos a tempos os seus orgãos genitais eram estimulados e eles copulavam. Se a fertilização se seguia a este ato, os períodos menstruais da fêmea eram suspensos e formava-se um embrião dentro do seu corpo, onde era alimentado, ao longo de uma gestação de cerca de nove meses, por intermédio de um dispositivo placentário. Depois de dar à luz ao seu filho, a fêmea separava aquele dispositivo do seu corpo logo a seguir ao parto, amamentava a criança e ajudava-a muitas vezes até que ela atingia uma fase em que já podia mover-se por si própria. À medida em que os anos iam passando, os corpos dos machos e das fêmeas sujeitavam-se a algum acidente, ou doença fatal, ou iam envelhecendo e deteriorando-se. Então, a morte vinha terminar os aspectos biológicos do seu comportamento e os cadáveres decompunham-se de acordo com as leis imutáveis da física e da química.”

II

titiev me impressiona não apenas por suas idéias, mas também pelo fato de falar português tão bem, mesmo tendo nascido em um lugar como kremenchug. e ele, não satisfeito com todo esse discurso, segue mais adiante nos classificando como seres vivos do reino animal, subreino dos metazoários, filo dos cordados, subfilo dos vertebrados, classe dos mamíferos, subclasse dos uterinos, ordem dos primatas, subordem dos antropoídeos, gênero homo, e, enfim - isso tinha que terminar em algum desastre – como pertencentes da espécie conhecida como "sapiens". pra quem não sabia nada sobre o útero digamos que a conversa me foi bem proveitosa.

agora, passando do útero ao problema do suicídio, o que isso nos tem a dizer sobre o tabu indiano contra o abate de vacas? e sobre o tabu judaico contra a carne de porco? e o que dizer sobre o tabu dos tapirés contra a carne de veado? e os balinenes, que para entrar entrar em determinados estados de transe cortam com uma mordida a cabeça de galinhas, balbuciam palavras de forma confusa, giram enlouquecidamente e até comem fezes? será a cultura apenas um disfarce, uma indumentária, um aparato artificial colocado acidentalmente sobre essa espécie de macaco esperto, apenas para confundir aqueles que buscam uma explicação coerente pra esse estado de coisas?

e as valorações estéticas, o sentido do belo, as noções de certo e errado? o que dizer sobre os impulsos sexuais e, como consequência, sobre as escolhas que machos e fêmeas fazem com objetivo de trazer ao mundo novos herdeiros aos filhos de adão? o que os nossos genes têm a dizer sobre a vida cotidiana? que por trás de toda forma de expressão cultural existe uma instituição universal chamada natureza humana? e que esta, por sua vez, é regida por leis imutáveis, como as leis da química e da física? será que devemos descartar as alegorias carnavalescas da cultura e substituí-las milagrosamente por alegorias menos extravagantes? será que, no fundo, no fundo, george, franscisco, adolfo, eu e você, somos a mesma pessoa?

celeuma II: porque os americanos são uma espécie em extinção ou o fantástico equívoco de mischa titiev


(em construção. estupefação do horror. clifford geertz)

segunda-feira, 9 de julho de 2007

o pará para os paraenses: nota sobre a máfia do tacacá

"os baianos invadiram o rio para cantar 'ó que saudade da bahia...'. bem, se é por falta de adeus, pt saudações."
paulo francis

recentemente fui acusado por dois paraenses xiitas de ter sido negligente com o que eles alegam ser a cultura paraense. cada um a seu modo. cada um com seus tiques. cada um com o seu arsenal de asneiras. o fato é que preferir peter murphy a nilson chaves, ou lou reed a chimbinha, não é exatamente o projeto mais ambicioso de um paraense não-praticante, mas uma dissertação sobre as qualidades terapêuticas do tacacá. não entendo como coisas desse tipo possam ser tão difíceis de entender. e lhes pergunto: fora a institucionalização do gosto, foras amarras do regionalismo, fora os heróicos brados retumbantes, de quantas novas prisões necessito pra me sentir civilizado? fico aguardando o menu completo, ávido para participar da brincadeira. e, se isso lhes serve de consolo, deixo aqui registrado que acredito no pará. de coração. acredito no pará, como acredito no brasil. aliás, como todo bom patriota, estou até acompanhando a copa américa. devo admitir, é verdade, que quando robinho fez o terceiro gol contra o chile desliguei a tv desesperançoso. na próxima quarta-feira, espero que o uruguai possa trazer meu bom humor de volta.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

sou eu que não presto

esse era um texto de uma canção de humberto effe. agora é um texto de minha autoria. e o dedico a marlene dietrich.


você é minha cadeia
enjaulado
fico preso no seu corpo
você me caça em suas teias como seu escravo
selvagem não me canso
pra que fugir me entregar é a única saída
como seu escravo me perdi na sua selva

meu coração
preso nessa cela
abre as pernas da sua paixão

o mundo anda mal mas sou eu que não presto
sou resto de uma idéia de uma nova rebeldia
o povo dessa selva se balança de alegria
vejo a tristeza se encharcar de euforia

enquanto feras estão soltas você me tortura a cada carência
e a cada violento arranhão
se pensa que isso é paixão esqueça
certas coisas não se sentem só no coração

será que alguém entende o meu amor?
você deve compreender o meu estranho jeito
de ser demente escravo do seu corpo
ou também acha esse o meu maior defeito?

pandora

Ontem ocorreu-me algo no msn:


Pan diz:
vc já imaginou robin se te cobram a porta da liga aberta?
Malcolm diz:
quem é vc?
Malcolm diz:
eu tô de saida!
Malcolm diz:
me cobram a porta da liga aberta?
Pan diz:
uma curiosa...que viu seu msn jogado por ai...dai sempre e sempre pensando nas possibilidades achei que poderia fazer um amigo super herói parodiando seu mail claro
Malcolm diz:
robin é de robinson
Pan diz:
tudo bem eu estava brincando...nada mais...
Malcolm diz:
entendi
Malcolm diz:
quem é vc? a bat girl?
Pan diz:
a gente se deleta se o ponto foi uma invasão que tu não querias...mas ai eu penso pq me aceitou...então agora eu fico...até vc apertar o delete
Pan diz:
eu sou a pan...ih pior
Pan diz:
eu sou a Pandora...minha caixa de absurdos sonhos
Malcolm diz:
caixa de absurdos de sonhos ...
Malcolm diz:
comecei a gostar ...
Pan diz:
e nao é assim quando esbarramos em alguém que nos chama a atençao....ah vc me chamou...deixando teu msn na rua
Malcolm diz:
deixei propositalmente
Pan diz:
foi mesmo? humm vc estava esperando a garota mágica passar....eu sabia ....
Malcolm diz:
eu sempre estou esperando a garota mágica passar
Pan diz:
então vc gosta de magia
Malcolm diz:
não. gosto de caixas de absurdos sonhos
Pan diz:
vão ter muitas aqui então
Malcolm diz:
mostre-as
Pan diz:
então eu fiz bem no fim de tudo te trazendo pra esta minha caixa de desejos
Pan diz:
vou mostrar ...
Malcolm diz:
mostra
Pan diz:
me diz que vc tem pra me chamar assim pra si?
Malcolm diz:
eu tenho apenas uma escultura enfumaçada no centro da sala com pessoas girando em torno dela
Pan diz:
já me basta
Pan diz:
quero girar junto
Malcolm diz:
então venha. estás convidada.

e ela se foi.


01.VII.07

sábado, 30 de junho de 2007

vou tirar você do meu sapato

um amigo meu, compositor, me pediu que lhe enviasse alguma coisa pra ele musicar. aqui está a letra da canção:



vou tirar você do meu sapato


vou tirar você do meu sapato o tempo segue a sua velocidade e o amor não cabe num comportamento que aflição ninguém sabe nada sobre o amor desta palavra esquisita que serve para definir uma função fisiológica que as pessoas revestem de um sentimento puramente decorativo e penduram na parede do lugar comum ao lado do vaso com as rosas artificiais dessa enrascada que me botaram sem pedir licença tudo bem ninguém sabe nada sobre o amor e até que posso tentar entender o teu químico amor e porque continuas tentando maquiar o tédio apontando o culpado da monotonia dessa terça-feira mas não comprei o último lançamento da música sertaneja o inferno é o caminho do céu então me certifico olhando para o relógio para saber em que terras do tempo meu corpo emerge da areia ao sol refletindo idéias


dentro do meu corpo percebo-me sentado pensado no corpo pesado dentro do sono lesado tentando dizer pra você que mesmo pensando sentado ao teu lado eu continuo errado ontem fez um dia lindo com sol e céu vermelho e eu já cansei de tentar mudar não acredito mais em coisa alguma e ainda assim você continua insistindo em me dizer que ando distraído talvez chico buarque com aquela velha história que a tal menina não tinha nada com a sua vida pudesse me dizer alguma coisa a respeito diz que deu diz que dá diz deus dará oh nega eu já estou de saco cheio e aproveitando a oportunidade vou andando pelo muro quando de repente encontro alguém que reclama do meu cigarro assustado cansando e com fome desço do muro com medo que essas normas jurídicas possíveis e imprevisíveis possam me enquadrar pulo fora pela esquerda e quando levanto a cabeça meu pensamento que cambaleia pelo asfalto do esclarecimento me fez lembrar que não tenho nem uma moeda no bolso e nenhum lugar me espera mas é daí é preciso compreender a importância do diabo para consagração definitiva de deus e se eu quiser também lhe dizer adeus ou tentar lhe convencer que deus e o diabo são a mesma pessoa por amor não tente me entender

quarta-feira, 27 de junho de 2007

notícias sobre a minha morte

um pouco depois da divulgação via e-mail de “futebol, nazismo e identidade cultural”, em novembro ou dezembro do ano passado, o paysandu caiu sei lá pra que divisão. na seqüência, recebi o seguinte recado:

“A queda é uma questão filosófica visceral: conhecer um homem em seu apogeu e admirá-lo é tarefa fácil. Conhecer um homem em sua queda, ver suas reações, sentir a força marmórea de sua dignidade insuspeita, isto sim é conhecer alguém em sua profundidade.

O Paysandú caiu. Viva o Paysandú!”

A.N.


segue a minha resposta:

“se o seu texto é uma espécie de resposta a crônica de minha autoria, tomo de assalto groucho marx para esclarecer que só a escrevi porque recentemente cheguei a conclusão de que as notícias sobre a minha morte soavam um tanto exageradas. coisas de um velho junkie decadente. após ler o seu texto, vi-me subitamente sob nova onda de estímulos. mas farei de conta que não é a vaidade que norteia nossa indisfarçável ciranda de devaneios. e que minha crônica falava de futebol.

munidos desse requintado alfabeto de predicados e prerrogativas lapidaremos cada palavra desse debate com o desvelo do artesão que lapida a própria tumba. mais adiante, tomaremos nossas vísceras como testemunha, e, orgulhosos de nosso fervor religioso, cantaremos aos nossos totens preferidos uma febril canção de louvor. nada mais civilizado.

se não o for, pouco importa. poupar-me-ei do esforço de ter que digerí-lo. mas ligarei imediatamente a televisão para esperar ansiosamente os gols do fantástico. nunca se sabe. bernard shaw já nos chamou a atenção do grave inconveniente de não termos olhos na parte de trás da cabeça.”

segunda-feira, 25 de junho de 2007

futebol, nazismo e identidade cultural

ontem fui a ressacada ver o jogo do paysandu contra o avaí pelo brasileirão. boa experiência. quando os jogadores entraram em campo e foram nos saudar, percebi que eles eram mais numerosos do que nós, os próprios torcedores. pensei que coisas do tipo só aconteciam em competições de xadrez. apesar disso, fazia tempo que eu não via tanto paraense reunido, e de vez em quando em me pegava pensando no que faz o paraense, paraense - tal qual já o fez roberto da matta em relação ao brasil. perguntei a amiga que me acompanhava, o que ela via de distintivo naquele povo. nada. perguntei se ela percebia alguns índios entre eles. também não. demorei um pouco, mas acabei entendendo que cocar, colares e pinturas faciais são bem diferentes de camisas de futebol. e que torcedores de futebol são o mesmo tipo de entidade carnavalesca, onde quer que estejam chacoalhando suas bandeiras.

o jogo foi bom, movimentado, e me senti bem em estar ao lado do meu povo, diante de milhares de avaianos fanáticos. ser minoria, especialmente num campo de futebol, dá um certo sentimento de heroísmo, de bravura. é uma coisa meio esquisita, mas está profundamente ligada aos devaneios desse tipo de mamífero que nós somos. a impressão que me passa é que nós estamos o tempo inteiro reescrevendo as páginas de “mein kampf” – aquele livrinho engraçado do hitler. nós não falamos alemão, mas as mentiras que nós contamos a nós mesmos são igualmente cômicas.

numa partida de futebol, isso tudo fica bem claro. de um lado, “os eleitos”, a quem seu deus lhes disse, “faça justiça!”; do outro, a própria “corporificação do mal”. nós estávamos, é claro, separados da “corporificação do mal” pelo alambrado - o que não impedia a mútua provocação entre os torcedores. em alguns momentos, a guerra entre as torcidas ficava mais interessante do que a própria partida. o ponto culminante disso tudo aconteceu quando a torcida do paysandu, depois de quase esgotar seu repertório de insultos e agressões verbais, passou a chamar em coro os torcedores avainos de gaúchos. “gaúcho! gaúcho! gaúcho!”. um dos torcedores do avaí, dos mais exaltados, se aproximou do alambrado e, com o dedo em riste, disse aos berros: “gaúcho, não! gaúcho não!”. entendi. comentários sobre os hábitos – digamos, irreverentes – de sua própria mãe, pode. gaúcho, não.


o paysandu perdeu o jogo. uma pena. duplamente. por que, em primeiro lugar, ganhar o jogo ali no centro do caldeirão avaiano seria um presente dos deuses. e depois, embora o avaí seja bicolor, como o paysandu, ele também é chamado por seus torcedores de leão. como aquele timinho paraense, que não lembro mais o nome.

domingo, 24 de junho de 2007

a convocação

"no futuro, todo mundo vai ser famoso por quinze minutos."
andy warhol

I

ninguém entendeu quando foi noticiado pela rede globo de televisão a convocação de luis pantoja filho para seleção brasileira de futebol. ele, que tinha como único grande feito esportivo uma terceira colocação no campeonato de pingue-pong do torneio de rua da pedreirense, agora via-se frente a frente com o inimaginável. só podia ser engano. mas não o era. no outro dia, estavam estampadas em todos os jornais do país as fotografias dos vinte e dois convocados para disputar a copa do mundo, e a foto de pantoja estava perfilada entre dunga e junior baiano. surpreendentemente o professor zagallo havia definido o quadro titular e pantoja estava convocado para jogar no ataque ao lado de ronaldo, colocando o astro romário na reserva. pensou definitivamente estar enlouquecendo quando alguns minutos após a notícia da convocação percebeu que na frente da sua casa uma multidão gritava em coro seu nome: "ei, ei, ei, pantoja é nosso rei!". ele, que há muito tempo morava só, tremia desesperadamente numa agonia surda. tinha pavor de multidões e agora pensava nervosamente como poderia ter sido convocado para a seleção se a última partida de futebol que jogara havia sido realizada em 1994, num torneio entre solteiros e casados que a companhia de transportes em que trabalha patrocinou. e com o curioso detalhe que naquela partida ele jogou no gol. só podia estar enlouquecendo.

o fato é que após ligar a televisão para esquecer todo aquele tumulto, pantoja viu-se como comentário principal de importantes celebridades paraenses. até o yamada, que detestava futebol, se emocionava afirmando que sempre acreditou no talento do novo convocado. o governador não conteve as lágrimas. almir gabriel já tinha planos inclusive para em breve substituir o nome da almirante barroso, por avenida luis pantoja filho! agora ele era o orgulho incontestável do estado e até o presidente da república havia enviado um telegrama para o governador, felicitando-o pelo importante acontecimento. a imprensa preparava uma entrevista coletiva em cadeia ao vivo para todo território paraense e pantoja tomado por um insólito embrulho no estômago, olhava para tela da tv com cara de quem tentava de entender.


II


no outro dia, de manhã cedo uma comitiva da CBF, após afastar a excitada multidão, bateu na sua porta. sem nada perguntar arrancaram-lhe pelos braços caso a fora, sob os protestos do atônito homem que tentava lhes convencer que aquilo se tratava de um engano. com o pensamento ainda embotado pela garrafa de velho barreiro que havia tomado para tentar dormir, foi jogado num microônibus em que se via as inscrições "BRASIL RUMO AO PENTA", em letras garrafais!
já no rio de janeiro tentou convencer o presidente da confederação que estava muito feliz por ter sido lembrado, que inclusive quando criança sonhava em jogar em jogar pela seleção, mas infelizmente não tinha talento para jogar futebol. afirmava que apesar do dinheiro que ele sabia que a fama ia lhe proporcionar, estava muito satisfeito com a anônima vida que levava e, portanto, não queria ir para frança. sem ouví-lo, sentando na suntuosa cadeira de seu gabinete, ricardo teixeira argumentava entusiasmado sobre a importância do "penta" para a sofrida população brasileira e que os jogadores deveriam "isso e aquilo", e que a marcação não podia ser "homem a homem" e todo mundo deveria jogar sério, e "já estamos providenciando seu passaporte que o embarque será amanhã!"


III


pantoja, acuado, parecia ser o único inconformado entre os convocados. encontrou os jogadores que só conhecia pelo "globo esporte". leonardo lhe deu uns tapinhas nas costas, "força, irmão!". zagallo, por sua vez, gesticulando nervosamente, já lhe apresentava o desenho tático do ataque brasileiro, ressaltando a importância de sua flutuação pelas alas para tentar romper o forte bloqueio defensivo escocês. denilson e rivaldo o tratavam como velhos amigos. romário nem o olhava.


IV


chegado o dia da estréia, a caminho do "parc de princes", pantoja conflitava silenciosamente: "por que logo comigo?". de qualquer maneira, agora era tarde demais já que a fanática multidão lotava o estádio e ele estava no globo central do gramado esperando o momento do juíz apitar para dar início a partida. e foi dado o início! pantoja toca a bola para ronaldinho, que toca a bola para rivaldo que passa a esquerda e chega a roberto carlos que dribla um, dribla dois, devolve para rivaldo, que obedecendo um berro do capitão dunga lança em profundidade para cafu, que velozmente dá um chagão no imenso zagueiro escocês e cruza para grande área. o goleiro voa, mas deixa escapar a bola na frente de pantoja, que sozinho na frente da trave faz o gol! gol do brasil! desses que até o fernando vanucci faria. 1 x 0.

dado o reinício da partida, o meio campista da escócia malcolm robinson, já percebendo quem era pantoja acerta-lhe um violento pontapé, que deixa nosso craque no chão, silenciando o estádio. o meio campista escocês é expulso sob as vaias da torcida e pantoja sai de maca do campo, do qual não retorna mais. o brasil vence o jogo com esse gol, pantoja sai carregado pelos companheiros como herói da partida e no dia seguinte a manchete do jornal "l'equipe" noticía o surgimento de um novo fenômeno no futebol. a foto colorida de pantoja sendo carregado pelo escrete brasileiro enaltecia em brilho a festa nacional. a imprensa francesa o chamava de "le formidable", enquanto deus e o diabo testemunhavam o orgulho eminente que o olhar de pantoja expunha ao ouvir a sonoridade do seu nome pela voz dos comentaristas franceses: "luí pantojá".


V

deu entrevista coletiva com tradutores para dezenas de idiomas. pantoja aos poucos ia se adaptando a situação. riu timidamente quando um jornalista belga, que trabalha para uma revista de variedades em nova york, o indagou sobre o comentário oportunista que sharon stone fez sobre sua maneira algo "sexual" de fazer gol. ele não entendeu a piada, mas suas frases significavam furos de reportagem e rapidamente chegavam as páginas de jornais de todas as partes do mundo. em meio a um animado grupo de jornalistas, respondeu a um renomado crítico futebolístico do cazaquistão sobre os erros táticos de zagallo: "a gente tem que dar crédito ao professor. ora, com exceção da ana paula arósio, ninguém é perfeito", e os jornalistas caíam as gargalhadas.
como se encontrava gravemente contundido, nosso craque não jogou mais nenhuma partida na copa. mas o brasil foi campeão, apesar de não apresentar um bom futebol, fato que os críticos atribuíam a ausência de luis pantoja no ataque, como elemento fundamental de desiquilíbrio das partidas. podíamos ver inclusive no pomposo "apito final" da bandeirantes, os comentários de gérson a respeito da importância daquele primeiro gol brasileiro na copa: "a participação de pantoja foi fundamental: time brasileiro que não vence na estréia, não sei não", filosofava ferozmente.

VI

juntamente com o resto da seleção luis pantoja voltou para o brasil. fernando henrique cardoso e dois ou três ministros os esperavam no hall do aeroporto do galeão. nosso convocado, que se sempre se achara feio sob qualquer ponto de vista, agora era saudado por bronzeadas cariocas aos berros: "lindo, lindo, lindo!". exageravam, obviamente, mas sob o carro dos bombeiros o paraense desfilou pelas ruas do rio de janeiro ofuscando o brilho dos outros jogadores, que, no fundo no fundo, sentiam uma leve inveja de tão ascendente personalidade.


VII


pantoja nunca mais jogou futebol. os anos se passaram, e cada vez mais acreditava que tinha pendurado as chuteiras no momento ideal. já era rico, famoso, tinha todas as mulheres que desejasse e não havia porque sacrificar-se em novos esforços. mas pelo menos a velhice, passada confortavelmente em uma de suas muitas fazendas, o trouxe uma certeza: tem coisas na vida que não precisam ser explicadas.


junho de 1998.

sábado, 23 de junho de 2007

a caça

faço questão de estar errado
não pertenço a tua língua a tua raça não sou tua caça
não pertenço a nada

eletrodomésticos

tá bom, tá bom, não existiam vacas. mas hoje em dia elas estão por ai, circulando por todos os lados. vacas subindo e descendo de elevadores. vacas entrando em shoppings, vacas indo comprar pão, vacas retocando a maquiagem. e vacas esperando seus bois chegarem em casa com um homem ensanguentado nos ombros.

adaptção de scrap-celeuma à vladimir i. ulianov lennin.
16.VI.07

ateísmo

o meu problema com o ateísmo é que ele é, ao contrário do que seus pregadores dizem, excessivamente impregnado de crendices. é muita crença pra um descrente como eu.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

o diabo

eu não costumo ler os jornais árabes, mas certamente em algum lugar a gente vai encontrar alguma coisa do tipo "o eixo do mal segue em direção a bagdá". e mesmo nos jornais protestantes daqui, tu vais ver que o diabo que é o culpado de tudo. o cara chega bêbado em casa e vê que não tem feijão na panela e toca fogo na casa – foi o diabo! perdeu o emprego, tá viciado em drogas, matou a mulher a facadas - foi o diabo! até o tal do rock’ roll já falaram que é coisa dele (é claro que hoje em dia tem seita protestante que ao invés dos antigos hinos, põe o pessoal pra afastar o diabo com o próprio rock. e se o diabo inventou o rock, então ele chegou na américa em algum navio negreiro – embora eu tenha lido num livro que ele é vermelho).

scrap-celeuma à brigitte bardot.
s/d

homem coloca a filha no microondas e a mulher culpa o diabo por isso

apesar de serem parecidos em diversos aspectos, o jornalismo e antropologia guardam algumas diferenças. eu não posso falar muito pelo jornalismo, mas acho que vocês devem ter em meta algo como "o fato" - que precisa ser descrito, com o máximo de “exatidão”. mas "fato" é só uma palavra. a descrição dele, a matéria, a reportagem, é uma descrição de algo que ocorreu, sob o qual o jornalista fará recortes principalmente a partir de uma série de prioridades editoriais. e a desrição já trás em si muito do jornalista.

observe a chamada da folha de são paulo: "homem coloca a filha no microondas e a mulher culpa o diabo por isso". nota que as maneiras de contar o fato são na verdade recriações, uma abstração sobre o que de fato ocorreu, e que só pode ter tido vida no momento de sua ocorrência. embora o jornalista queira trazer as informações de uma maneira imparcial, ele está criando na verdade ao espectador a ilusão que ele está vivenciando a realidade. mas não está.

percebemos logo de cara que o jornalista, e o leitor-modelo desse veículo de comunicação, não acreditaria que o diabo (que deve estar agora inocentemente sentando em uma confortável poltrona vermelha no inferno se lamentando “o que que eu fiz dessa vez?!”) foi o verdadeiro culpado pelo crime - senão, a manchete não teria tal acusação. por outro lado, uma sociedade com crenças acentuadas em “forças do mal” estaria convencida de que um homem não seria capaz algo do tipo, de forma que se tratava realmente de uma ação de lúcifer - ou seja lá como eles chamam o cara-, e a chamada nos revelaria outro "fato".

nesse sentido, se está criando, tecendo, construindo algo. quando tu perguntas pra uma pessoa como foi a noite, ela pode te dizer que foi legal, que fulano e beltrano estavam lá, e que ela passou três horas e meia tentando sair do banheiro, mas que não encontrou a porta de saida porque estava absolutamente bêbada. e tu podes até dizer que entendeu. mas o que foi vivido, como nos mostra clarice lispesctor, não é relatável, não é vivível. agora acredito, e acho que esse é o ponto chave da questão toda, é que alguns dos elementos do "evento" podem ser transmitidos ao espectador de maneira bastante precisa (bin laden derubou dois prédios, e não três casas). talvez por isso tu tenhas discordado da afirmação de que todo escrito é uma forma de ficção - e eu concordo contigo apenas nesse sentido.

no sentido jornalístico dizer que tudo é ficção é simplesmente sepultar toda credibilidade da imprensa. imagina um jornalista dizendo ao editor-chefe que não foi fazer a matéria porque "criou o que aconteceu". se ele não for sobrinho do dono da empresa, vai encontrar alguns problemas depois pra pagar suas contas. agora na antropologia a coisa toda segue uma outra orientação. eles também tabalham com "fatos" no sentido jornalístico, mas se o projeto fica nisso, ele torna-se um trabalho jornalístico - então pra que precisaríamos de antropólogos? a diferença é que o objetivo não é descrever o fato, mas compreender porque os caras estão agindo dessa ou daquela maneira. e aqui, a antropologia é uma ficção. alguém vai lá, observa, participa, e volta com um conjunto de textos de baixo do braço. ficções.
scrap-celeuma à lilian witfibe.
s/d

natal

não consegui nem os 50% da prova de português! mas já tô resignado com a minha incompetência lingüística. depois do concurso, um amigo meu, poliglota, me disse que português é uma língua dificílima! é um bom amigo. vou lembrar de mandar um bonito cartão de natal pra ele.


scrap-resposta à clarice lispector.
s/d

em busca do cálice sagrado

por falar em rivotril, semana passada eu fui no psiquiatra pra ver se me livro do medicamento – que é um ansiolítico - e o cara, parece que ele não entendeu muito bem o que eu tava falando, me deu gratutitamente um caixa de anti-depressivos! anti-depressivos! o problema é que eu sou apenas um pouco agitado, e tenho esse problema pra me desligar, mas não eu estou deprimido! como diz o velho moribundo de "em busca do cálice sagrado": “i'm not dead! i'm happy! i'm happy!”.


scrap à timothy leary.
s/d

resposta do colonizado

1) eu não tenho nada a ver com essa coisa de brasilidade, a não ser o fato de infelizmente ter nascido aqui. preferia ter nascido no camboja.
2) as fronteiras políticas entre as nações, e, por conseqüencia, a constituição das fronteiras lingüisticas entre elas, é coisa antiga. quem tinha o tacape tinha a vantagem. foi o que aconteceu no brasil. os indígenas tinham a cabeça e não o tacape. por isso falamos português.
3) será que tenho a obrigaçao de falar, produzir, cantar ou escrever em português por que tenho um estômago?
4) o que os potugueses fizeram no brasil foi pior do que os alemães fizeram com os judeus na decada de 40. hitler é um santo, perto dos imperialistas portugueses dos séculos XV e XVI.
5) o inglês é um idioma britânico.
6) não gosto do argumento do tipo "nosso idioma é o tupi" - os próprios bons selvagens matavam-se uns aos outros em nome de sua própria nação. eu não acredito nem em portugueses, nem em indígenas, nem em americanos. eu não acredito na humanidade. mas eu poderia compor uma bossa-nova em tupi pra demonstrar minha preocupação pela causa indígena.
7) isso tudo pode parecer um pouco ácido demais. mas, tu nao imaginas a quantidade de vezes que tive me defender de agressões de pessoas que acham um absurdo eu compor em inglês. em mesa de bar, eu já tentei explicar, tentei usar todo tipo de argumento razoável, mas não dá certo, porque a gente tem essa loucura de acreditar que deve defender nossa pátria (aliás, uma coisa que beira ao militarismo). então, quando alguém me pergunta num boteco porque que eu não componho em português, eu respondo simplesmente que não o faço, porque o considero um idioma feio - que é uma inverdade, mas pelo menos dou um corte e a celeuma toma outro rumo.
scrap-resposta à maria bethânia.
s/d

o concurso

que pena que você desistiu do concurso. é verdade que os programas são pesadíssimos. no concurso pra sociólogo vai cair até lingüística. o cara tem que estar afim mesmo de passar - ou, sei lá, endividado - pra encarar tamanha empreitada. eu vou de todo modo. eu disputei um concurso há cerca de um mês, e fui desclassificado porque não consegui 50% em português! dá pra acreditar? fiz 100% da prova de sociologia. na verdade, oficialmete errei uma questão, mas era facilmente anulável, que era o conceito de “valores sociais” em durkheim, e os caras têm coragem de me dizer que “virgindade” é um valor social. estão todos loucos! se virgindade é valor social, carro, geladeira e sogra também são. e não sou eu quem digo, é o próprio durkheim! virgindade não “é”, ela “tem” valor social! eu nem recorri depois do choque de ter visto o gabarito da prova de conhecimentos gerais. agora vou ter que comprar uma gramática pra aprender a falar português.

scrap à flávia wintenberg.
s/d

ócio

domenico de masi é entre os sociólogos o meu autor favorito. pra mim, ele é sem dúvidas o mais original de todos os autores das ciências sociais - e, olha que sou discípulo de clifford geertz! aliás, os dois são bem parecidos no estilo de escrita. a sensação que eles nos passam é que não estamos lendo um livro, mas que estamos num boteco, entre uma taça de vinho e outra. o geertz, por exemplo, diz em um de seus livros: “o que o antropólogo está se perguntando o tempo inteiro é, afinal, que diabo eles pensam que estão fazendo?”. é como se bukowski tivesse repentinamente se tornado um antropólogo.

se domenico de masi é um pouco mais careta, o mesmo não pode ser dito sobre as suas idéias. tenho um artigo em que ele, fazendo uma metáfora sobre a sociedade ocidental, nos conta a história do de um herói grego que foi punido pelo excesso de engenhosidade. sua pena era transportar uma rocha até o topo de uma montanha. chegando lá, a rocha se precipitava até a base. e ele tinha que fazer de novo, e de novo, a tarefa por toda eternidade. um trabalho inútil. a diferença é que hoje, a sociedade industrial poderia construir um mecanismo eletrônico que fizesse a tarefa por ela. assim, poderia aproveitar todo o tempo livre.

e no final das contas, o que é a “velhice” ou “aposentadoria”, senão uma espécie de sepultura, e, por essa razão, o maior indício que a lógica toda do sistema tá errada? o grande problema é que além de não sabermos o que fazer com o tempo livre, nos sentimos orgulhosos quando dizemos que trabalhamos vinte horas por dia. é como se isso nos absolvesse de toda a responsabilidade pelo fato de uma horda de “vagabundos” estarem “compondo”, “pintando” ou “escrevendo”. e ao mesmo tempo, é como se tais atividades não podessem ser chamadas de trabalho. nós estamos tão impregnados deste tipo de orientação que outro dia o frejat estava contando que seu filho lhe perguntou se ele não trabalhava. esse tipo de coisa não surge por falta de maturidade de uma criança, mas por falta de maturidade do “pensamento do homem contemporâneo” - um estado de sociopatia agudo.

cave de mourville

ah!, antes que eu esqueça, o 'cave de mourville' é um prato que eu achava que tinha inventado. até que um dia, um amigo veio ver a minha alegada invenção e disse: ‘isso é moqueca!’. fiquei chocado com o nome daquela coisa que me parecia tão genial. na verdade, devo ter misturados os sabores de memória e feito alguma confusão, já que o detalhe é que o prato não é exatamente uma moqueca (esse debate, acredite, dura até hoje). trata-se de atum com camarão, batata, cheiro verde, leite de coco e dendê. o charme do prato é justamente a batata que não tem na tal da moqueca. em protesto, tomei a decisão de batizar 'afrancesadamente' o prato. roubei o nome de um texto do veríssimo. (...) e cada vez que alguém pronunciava perfeitamente o nome do prato eu brincava dizendo, ‘não, não, não. preste atenção. a pronúncia correta é cave de mourville', repetindo o nome do prato exatamente como a pessoa o tinha feito alguns segundos antes.

fragmento de scrap-resposta à claude lévi-strauss.
28.XI.06

fumaça de fios queimados

I


falando em energia elétrica ... minha ducha pegou fogo! um espetáculo! terminei o banho congelado! e agora eu tô fumando as 5 mil substâncias tóxicas atribuidas ao meu cigarro, misturada com essa fumaça de fios queimados. tô eperando pra ver o que acontece.

scrap à anna robinson.
14.VI.07


II

não. eu fiquei lá dentro mesmo. desliguei a a ducha. depois continuei tomando banho normalmente. só sai quando não conseguia mais respirar.

scrap-resposta a juliette lewis.
14.VI.07

rock'roll

gosto do que aconteceu com o rock'roll ao longo dos anos. talvez ela seja o único gênero musical cujo desenvolvimento se fundamenta na própria negação do gênero. gosto do rock'roll quando ele não sabe mais o próprio nome. gosto do rock'roll quando ele não lava as mãos antes de comer. quando ele não sai por ai marchando. gosto do rock'roll quando ele se descobre não adaptado. quando ele perde seu emprego. quando ele acende um cigarro trinta segundos depois de acordar. gosto do rock'roll quando ele reclama de sua gastrite. quando ele detesta o rock'roll. quando esquece o caminho de volta pra casa. gosto do rock´roll quando ele se descobre jazz. e folk. e coisa alguma.

o canibal

outro dia, eu estava lendo um desses livros de história do brasil para vestibulandos (um péssimo hábito, eu sei), quando lá encontrei um curioso fragmento. embora cômico, como se extraído de um livrinho barato de anedotas, me parece um tratado sobre a condição humana:

"com o apoio dos soldados e engrossando as fileiras pelo caminho, napoleão avança rapidamente em direção a paris. as manchetes dos jornais parisienses da época informavam: ‘o monstro corso desembarcou na baía de são joão’. ‘o canibal marcha sobre grasse’. mas, a medida que o avanço de napoleão obtinha êxito, os jornais mudavam de tom. ‘bonaparte ocupou lyon’, ‘napoleão aproxima-se de foitenaibleu’. finalmente, um dia antes do irreversível avanço sobre paris, as manchetes anunciavam: ‘sua alteza imperial é esperada amanhã em sua fiel paris".

comunistas

os comunistas são caras engraçados. até a semana passada - eu não sei como é que tá o humor deles hoje em dia -, eles estavam bastante apreensivos com o surgimento de tecnologias "imperialistas de controle mental" como a internet. mas eu tava fazendo as contas ainda há pouco, e descobri que gastei vinte centavos em quatro livros do dvorestky, graças um programinha vagabundo que coloquei na minha máquina imperialista. se eu estivesse fazendo como eles, teria gastado quatrocentos reais, pagando diretamente a grana toda a uma assalariada, que desse dinheiro não ficaria nem com os vinte centavos que eu dei ao provedor. queria saber o que os comunistas acham disso. será que eles sabem usar uma máquina calculadora?

use vírgulas para separar os interesses

eu estava reeditando o meu perfil do orkut e descobri acidentalmente que o pessoal que trabalha na administração dessa josta está realmente preocupado com a gente. e eles me disseram bem no cabeçalho da página de edição: “esta é a sua chance de mostrar às pessoas o quanto você é especial. use vírgulas para separar os interesses”. parece que é um pessoal legal. um povo de confiança. estou tentando me esforçar para não decepcioná-los.

televisão

quem me conhece sabe muito bem que amo os meus livros. entre originais e cópias, tenho mais de 300 deles espalhados pelo meu apartamento – fora os que estão perdidos em bibliotecas clandestinas de florianópolis e belém – e sei lá onde mais; essas coisas circulam. mas cheguei aqui para confessar que muitas vezes prefiro ler televisão. na maioria das vezes, ela é mais incisiva em suas discussões sociológicas do que muito livrinho metido a engenheiro do comportamento. se conseguirmos extrair o tom solene de suas falas, a única coisa que resta é um festival de asneiras com formalidade estética. mas não estou dizendo com isso que o povo é o super-herói desta disneylândia. neste tribunal inquisitório, mocinhos e bandidos estão destinados à fogueira. se isso fosse uma partida de xadrez, estaríamos diante de uma daquelas posições em que ambos os jogadores estão perdidos.

o que mais admiro na tv é sua capacidade de amplificar nossa mediocridade. a tv não cria nada de novo. é sintoma. febre. náusea. ao contrário do que as pessoas imaginam, foi o povo quem inventou o silvio santos. foi o povo quem inventou o tarcísio meira. foi o povo também quem planejou, desenhou e executou o projac. foi o povo quem inventou eu e você. hoje, ele deve estar ocupado com o acabamento de algum novo projeto. afinal, quem está com o poder? o cientista ou o monstro? o grande problema é que essa cambada de imbecis metidos a intelectuais se acham muito mais interessantes do que de fato são. ficam perambulando por ai balbuciando discursos que tem como uma única conseqüência delinear fronteiras culturais como faziam os nambiquaras até bem pouco tempo atrás. é como se a tv habitasse o lado oposto de um eixo horizontal que se inicia lá onde estes farsantes registram editorialmente suas mentiras.

mas não sejamos tão severos. outro dia, a rede globo anunciou a apresentação de uma música inédita do gonzaguinha, e depois, enquanto a música era executada (não por ele, mas por um desses grupinhos orgulhosos de sua higiene sonora), fiquei pensando onde estaria o áudio-original. e ele apareceu. não mais que uns poucos segundos. a gravação era abafada, a voz seca, mas era o original. logo depois, corte, e o grupinho voltou a executar a música. por que não executaram a canção inteira na voz do próprio gonzaguinha? pareceu-me o típico caso “cuidado com o que as crianças vão pensar!”. e isso de fato é um problema grave, porque ficamos o tempo inteiro com essa mania de fazer de conta que somos melhores quando estamos maquiados. será - como nos pergunta bernard shaw - que somos nós fascinando a todos com as nossas melhores roupas, ou somos nós escondendo os chinelos do olhar alheio? espero que quando o primeiro marciano botar os pés sobre a terra, encontre uma tv ligada pra entender um pouco mais sobre eu e você.

morangos silvestres

pra começo de conversa, faço minha as palavras de ingmar bergman:

"minha peça começa com o ator que desce à platéia, estrangula um crítico e, de um livrinho preto, lê todas as humilhações que sofreu e de que tomou nota. depois vomita sobre o público. em seguida, afasta-se e dá um tiro na cabeça".